CHICO PICADINHO: OS DOIS CRIMES QUE CHOCARAM SÃO PAULO E O HOMEM QUE PASSOU QUASE 50 ANOS SOB CUSTÓDIA
Francisco da Costa Rocha ficou conhecido por dois assassinatos cometidos com dez anos de intervalo. O primeiro aconteceu em 1966, na Rua Aurora, no centro de São Paulo. Depois de cumprir parte da pena e voltar à liberdade, ele matou novamente em 1976. O caso provocou um dos mais controversos debates da história criminal brasileira sobre violência, transtornos de personalidade, responsabilidade penal e os limites da internação.
Fotografias históricas de Francisco da Costa Rocha, o homem que a imprensa brasileira passou a chamar de Chico Picadinho.
O homem por trás do apelido
Francisco da Costa Rocha nasceu em 27 de abril de 1942, no Espírito Santo. Sua infância e juventude aparecem em diferentes relatos como períodos marcados por dificuldades familiares, abandono e experiências de violência.
Já adulto, mudou-se para São Paulo e passou a frequentar intensamente a região central da cidade, especialmente a área conhecida na época como Boca do Lixo, marcada por bares, boates, cinemas, prostituição e intensa vida noturna.
Foi nesse ambiente que sua história criminal ganhou proporções nacionais.
O apelido “Chico Picadinho” não era usado por ele próprio: surgiu na imprensa para descrever a maneira como os corpos das duas vítimas foram mutilados após os assassinatos.
1966: O primeiro assassinato
Na madrugada de 3 de agosto de 1966, Francisco Costa Rocha estava em seu apartamento na Rua Aurora, região central de São Paulo.
Naquela noite, ele havia conhecido Margareth Suida, uma austríaca de 38 anos, descrita nas fontes como bailarina e massagista.
Os dois passaram parte da noite juntos antes de seguirem para o apartamento.
Ali ocorreu o primeiro assassinato.
Margareth foi estrangulada. Depois da morte, Francisco mutilou e esquartejou o corpo utilizando diferentes instrumentos.
O crime rapidamente chamou a atenção da polícia e da imprensa pela brutalidade incomum para a época.
O detalhe que levou à prisão
Depois do assassinato, Francisco procurou um amigo e teria contado o que havia feito. O amigo acionou a polícia.
Francisco fugiu para o Rio de Janeiro, mas acabou localizado e preso.
Em depoimentos, forneceu informações sobre o crime que impressionaram investigadores e peritos.
A região da Rua Aurora fazia parte da chamada Boca do Lixo, uma das áreas mais movimentadas da vida noturna paulistana durante as décadas de 1960 e 1970.
O julgamento e a primeira condenação
Francisco foi condenado pelo assassinato de Margareth.
A pena inicialmente aplicada foi posteriormente reduzida por diferentes mecanismos legais e pelo comportamento apresentado durante o cumprimento da sentença. Ele acabou deixando a prisão em 1974, depois de aproximadamente oito anos de encarceramento.
Esse ponto se tornaria fundamental para compreender o que aconteceria dois anos depois.
Antes de voltar às ruas, Francisco havia passado por avaliações que consideraram sua situação compatível com o retorno ao convívio social.
A decisão acabaria sendo uma das questões mais discutidas posteriormente no caso.
1974: Chico volta à sociedade
Depois de deixar a prisão, Francisco tentou reconstruir a vida.
Mas sua liberdade duraria pouco mais de dois anos.
Em 1976, ocorreria o segundo crime.
E, dessa vez, as consequências seriam muito diferentes.
1976: o segundo assassinato
Em outubro de 1976, Francisco Costa Rocha matou novamente uma mulher em São Paulo.
A vítima foi Ângela de Souza da Silva, também conhecida pelo nome de Sueli, segundo diferentes registros publicados sobre o caso.
O cenário novamente apresentava características semelhantes ao primeiro crime.
A mulher foi estrangulada e, posteriormente, o corpo foi esquartejado.
Francisco tentou esconder e eliminar os restos mortais, utilizando uma mala e o banheiro do apartamento.
A repetição do padrão causou enorme repercussão.
Agora, a polícia não estava diante de um homicídio isolado.
O mesmo homem havia matado novamente depois de ter sido condenado por um crime praticamente semelhante.
A prisão de 1976
Depois do segundo assassinato, Francisco fugiu.
Ele acabou sendo localizado 28 dias depois, em uma praça de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, enquanto lia uma revista que relatava justamente sua própria história criminal.
A prisão encerrou sua tentativa de escapar da Justiça.
Dessa vez, a condenação foi muito mais pesada.
E Francisco nunca mais voltaria a viver normalmente em liberdade.
Por que o caso se tornou tão controverso?
A história de Chico Picadinho passou a ser muito maior do que os dois assassinatos.
O caso colocou frente a frente três questões extremamente complicadas:
Essas perguntas atravessaram décadas de processos judiciais.
A psiquiatria entra no caso
Ao longo dos anos, Francisco foi submetido a diversas avaliações psiquiátricas.
Os diagnósticos e interpretações sobre sua personalidade variaram conforme a época e os profissionais envolvidos.
É importante evitar uma simplificação comum em matérias sobre o caso: “psicopatia” não significa automaticamente insanidade ou incapacidade jurídica.
No processo de Chico Picadinho, justamente a discussão sobre sua responsabilidade e sua condição mental foi um dos aspectos mais complexos.
Em 1998, por exemplo, documentos judiciais registravam a discussão sobre sua capacidade de permanecer em sociedade e a necessidade de tratamento psiquiátrico.
1998: a pena termina, mas ele não é libertado
Aqui está um dos capítulos mais impressionantes da história.
Francisco havia cumprido a pena criminal determinada pela Justiça.
Em 1998, portanto, surgiu a expectativa de que pudesse deixar a custódia.
Mas isso não aconteceu.
O Ministério Público entrou com uma ação na Justiça Civil, e Francisco permaneceu internado em Taubaté por causa de uma interdição civil, fundamentada em avaliações que apontavam risco à sociedade.
A situação criou um enorme debate jurídico:
Se a pena criminal havia terminado, por quanto tempo o Estado poderia continuar mantendo uma pessoa afastada da sociedade?
O caso acabou se transformando em uma referência quando se fala sobre a diferença entre pena criminal e medida de segurança/interdição.
A Casa de Custódia de Taubaté
Durante décadas, Chico Picadinho permaneceu associado à Casa de Custódia e Tratamento de Taubaté, posteriormente denominada Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico Dr. Arnaldo Amado Ferreira.
A histórica unidade de Taubaté onde Francisco Costa Rocha permaneceu durante décadas.
A instituição recebeu ao longo de sua história diversos criminosos de grande repercussão nacional.
Entre os nomes associados ao local estão Chico Picadinho, Bandido da Luz Vermelha e Pedrinho Matador.
A unidade também entrou para a história por outro motivo: o Anexo da Casa de Custódia de Taubaté foi o local onde, em 1993, ocorreu a reunião que deu origem ao Primeiro Comando da Capital (PCC).
2017: uma possível liberdade
Em 1º de março de 2017, uma decisão judicial determinou a soltura de Francisco.
Ele já havia passado aproximadamente quatro décadas sob custódia.
A decisão considerou que sua pena criminal estava cumprida e estabeleceu condições para uma eventual reintegração à sociedade, incluindo avaliações e acompanhamento.
Francisco Costa Rocha durante o período em que permaneceu na Casa de Custódia de Taubaté.
A notícia provocou enorme repercussão.
Muitas pessoas perguntavam:
Como alguém responsável por dois assassinatos tão brutais poderia ser colocado novamente em liberdade?
Ao mesmo tempo, juristas levantavam outra questão:
Pode o Estado manter indefinidamente alguém preso depois que sua pena terminou?
Era exatamente esse conflito que tornava o caso tão complexo.
Mas ele chegou a ser libertado?
Não de maneira definitiva.
Apesar da decisão de 2017, o processo envolvendo sua situação jurídica continuou sendo marcado por avaliações, decisões e controvérsias.
Relatos posteriores indicaram a continuidade da custódia em razão das avaliações sobre sua condição mental e possível risco de reincidência.
Segundo reportagem do UOL publicada em outubro de 2025, Francisco permanecia internado em Taubaté aos 83 anos, sob uma medida de segurança sem prazo definido. A Secretaria da Administração Penitenciária informou que ele estava em bom estado de saúde e acompanhado por equipe multidisciplinar.
Quase meio século atrás das grades
Poucos criminosos brasileiros passaram tanto tempo sob custódia.
Francisco Costa Rocha ficou preso ou internado por praticamente toda a vida adulta depois do segundo crime.
Em 2025, reportagens registravam que ele estava próximo de completar 50 anos desde a prisão de 1976.
Isso fez surgir uma situação juridicamente extraordinária:
ele cumpriu a pena criminal, mas continuou privado da liberdade por uma decisão relacionada à sua condição mental e à avaliação de risco.
O fechamento do Hospital de Custódia
Outro capítulo recente envolve o próprio lugar onde Chico passou décadas.
A política brasileira de desinstitucionalização dos hospitais de custódia provocou mudanças profundas nessas instituições.
Em 2024 e 2025, foram estabelecidos processos para a desativação da unidade de Taubaté.
Reportagem publicada em maio de 2026 informou que a antiga Casa de Custódia de Taubaté encerraria suas atividades naquele ano, depois de mais de um século de história institucional.
Isso acrescentou uma nova pergunta ao caso:
O que aconteceria com Chico Picadinho diante do fim daquela instituição?
A questão não é simplesmente transferir um preso de um endereço para outro. Envolve uma decisão sobre tratamento psiquiátrico, segurança, direitos individuais e responsabilidade do Estado.
Uma vida marcada por avaliações contraditórias
Um dos aspectos mais intrigantes do caso é que Francisco Costa Rocha não foi descrito sempre da mesma maneira.
Durante diferentes períodos de sua longa permanência institucional, apareceram avaliações sobre seu comportamento cotidiano, sua capacidade intelectual e sua personalidade.
Reportagens registraram que ele se dedicava à leitura e à pintura enquanto estava em Taubaté.
Registros publicados mostram Francisco Costa Rocha envolvido com atividades artísticas durante o período de custódia.
Essa aparente contradição — um homem que podia apresentar comportamento cotidiano controlado e, ao mesmo tempo, carregar um histórico de extrema violência — tornou-se parte importante das discussões sobre o caso.
Chico Picadinho foi um serial killer?
O termo é frequentemente utilizado para descrevê-lo.
Ele matou duas mulheres, em 1966 e 1976, com dez anos de intervalo, e os dois crimes apresentaram características semelhantes.
Entretanto, classificações criminológicas podem variar conforme os critérios utilizados.
O ponto incontestável é que Francisco Costa Rocha é um dos criminosos brasileiros mais conhecidos por dois homicídios com posterior esquartejamento das vítimas.
O que tornou o caso tão assustador?
- Não foi apenas a violência dos crimes.
- Foi a repetição.
- O primeiro assassinato ocorreu em 1966.
- Francisco foi preso.
- Cumpriu parte da pena.
- Foi considerado apto a retornar ao convívio social.
- Voltou às ruas.
- E, em 1976, matou novamente.
- A segunda ocorrência transformou o primeiro caso em uma espécie de alerta retrospectivo sobre as limitações das avaliações de risco daquela época.
A grande pergunta que permanece
O caso de Chico Picadinho nunca deixou de provocar uma pergunta difícil:
É possível prever se uma pessoa que cometeu um crime extremamente violento voltará a matar?
A resposta é muito mais complexa do que simplesmente analisar um diagnóstico psiquiátrico.
Avaliações de risco criminal envolvem histórico de violência, comportamento, personalidade, contexto social, adesão a tratamento, reincidência e muitos outros fatores.
E mesmo avaliações especializadas não oferecem uma previsão perfeita do comportamento futuro.
Por isso, o caso continua sendo estudado por profissionais do Direito, Psiquiatria Forense, Psicologia e Criminologia.
O legado sombrio do caso
Chico Picadinho deixou uma marca na história policial brasileira por dois motivos.
O primeiro foi a brutalidade dos assassinatos de Margareth Suida, em 1966, e Ângela de Souza da Silva, em 1976.
O segundo foi a batalha jurídica que veio depois.
Seu processo atravessou décadas e colocou em discussão questões que continuam atuais:
Até onde deve ir a pena criminal?
O que acontece quando a pena termina e a pessoa continua considerada perigosa?
Qual é o limite de uma medida de segurança?
Como diferenciar doença mental, transtorno de personalidade e responsabilidade penal?
O Estado pode manter alguém internado indefinidamente?
Como proteger a sociedade sem transformar uma medida de segurança em uma prisão perpétua disfarçada?
Foi essa combinação de crime, psiquiatria e Direito que transformou Chico Picadinho em um dos casos mais estudados e controversos da história criminal brasileira.
CRONOLOGIA DO CASO
| Ano | O que aconteceu |
|---|---|
| 1942 | Nasce Francisco da Costa Rocha, no Espírito Santo |
| 1966 | Mata Margareth Suida em São Paulo |
| 1966–1974 | Cumpre pena pelo primeiro crime |
| 1974 | Deixa a prisão |
| 1976 | Mata Ângela de Souza da Silva |
| 1976 | É preso novamente |
| Décadas seguintes | Passa por avaliações psiquiátricas e permanece sob custódia |
| 1998 | Cumpre a pena criminal, mas continua privado da liberdade por decisão na esfera civil |
| 2017 | Justiça determina sua soltura, provocando grande repercussão |
| 2025 | Reportagens registram que ele continua internado em Taubaté |
| 2026 | A desativação da antiga estrutura de custódia de Taubaté acrescenta novo capítulo ao caso |
CHICO PICADINHO: UM CASO QUE NÃO TERMINOU COM A CONDENAÇÃO
Mais de meio século depois do primeiro assassinato, a história de Francisco Costa Rocha continua sendo lembrada não apenas como um caso de extrema violência, mas como um dos maiores dilemas da Justiça criminal brasileira.
Dois assassinatos separados por dez anos deram origem a quase seis décadas de consequências.
Chico Picadinho se tornou um leitor voraz e um homem de cultura bastante ampla, e uma fonte que reproduz o relato sobre a entrevista de Ilana Casoy afirma que ela se surpreendeu com o nível intelectual dele: ele queria conversar sobre grandes filósofos e bons livros, evitando falar dos próprios crimes.
O LADO INTELECTUAL DE CHICO PICADINHO: LIVROS, FILOSOFIA E UMA CULTURA CONSTRUÍDA ATRÁS DAS GRADES
Existe um aspecto pouco conhecido da trajetória de Francisco Costa Rocha que contrasta fortemente com a imagem criada pela brutalidade de seus crimes: o desenvolvimento de uma vida intelectual dentro do sistema de custódia.
Ao longo dos muitos anos em que permaneceu preso e internado, Chico Picadinho passou a dedicar grande parte de seu tempo à leitura. Relatos sobre ele o descrevem como um leitor voraz, interessado por literatura, filosofia e assuntos intelectuais.
Esse detalhe aparece de maneira particularmente interessante nos relatos relacionados à escritora e criminóloga Ilana Casoy, que entrevistou pessoalmente Francisco Costa Rocha para seu trabalho sobre serial killers brasileiros. Segundo relatos sobre esse encontro, Casoy ficou impressionada com a maneira educada e culta com que ele se apresentava.
Em vez de simplesmente falar sobre os assassinatos, Francisco demonstrava interesse em conversar sobre ideias filosóficas, grandes pensadores e literatura. Uma fonte que reproduz o relato da entrevista afirma que ele preferia discutir “as ideias dos grandes filósofos” e “bons livros” a falar sobre seus crimes.
De preso a leitor voraz
É importante entender que não se trata simplesmente de dizer que ele “ficou mais inteligente” depois dos crimes.
O que os relatos indicam é que Francisco desenvolveu e aprofundou conhecimentos por meio da leitura ao longo dos anos de confinamento.
Foram décadas de contato com livros e diferentes assuntos. Nesse período, ele teve tempo para ler, refletir e construir um repertório cultural que surpreendia algumas das pessoas que tiveram contato com ele.
Uma descrição publicada sobre o caso chega a classificá-lo como um homem de “elevado nível intelectual”, interessado em filosofia e literatura.
Esse aspecto também aparece associado à maneira como ele se comunicava. Os relatos sobre as entrevistas descrevem um homem educado, articulado e capaz de manter conversas sobre assuntos muito diferentes daqueles relacionados à criminalidade.
O contraste assustador
É justamente aí que surge uma das maiores contradições da história de Chico Picadinho.
O mesmo homem que ficou conhecido por dois assassinatos extremamente violentos também passou décadas desenvolvendo um repertório cultural e intelectual.
A cultura, portanto, não apagou a violência.
E a violência também não eliminou sua capacidade de ler, pensar, argumentar e demonstrar interesse por literatura e filosofia.
Essa contradição é importante porque impede uma visão simplista de sua personalidade.
Inteligência não significa bondade. Cultura não significa ausência de violência. E conhecimento não é sinônimo de equilíbrio emocional ou de capacidade de controlar impulsos.
O caso de Chico Picadinho tornou-se justamente perturbador porque essas características aparentemente incompatíveis podiam coexistir na mesma pessoa.
A literatura como parte da vida institucional
Para alguém que passou décadas praticamente afastado da sociedade, os livros também representavam uma forma de contato com um mundo exterior que continuava se transformando.
Enquanto o Brasil passava pela ditadura militar, pela redemocratização, pela Constituição de 1988, pela expansão da televisão e, posteriormente, pela chegada da internet, Francisco permanecia institucionalizado.
Nesse intervalo, a leitura oferecia acesso a outras épocas, pensamentos, autores e culturas.
Assim, o homem que entrou no sistema prisional na década de 1960 envelheceu acompanhado não apenas por médicos, psicólogos e agentes penitenciários, mas também por livros e conhecimento adquirido ao longo de décadas.
Ilana Casoy e o encontro com o criminoso culto
O encontro com Ilana Casoy é especialmente significativo porque ela não conheceu Francisco apenas por documentos policiais.
Ela esteve frente a frente com ele.
Casoy posteriormente o descreveu como uma pessoa “totalmente normal, culto, um gentleman”, ressaltando a impressão causada pelo comportamento dele durante o contato.
Isso ajuda a compreender uma das características mais desconcertantes de determinados criminosos: a aparência cotidiana e a capacidade intelectual podem estar muito distantes da natureza dos crimes cometidos.
No caso de Chico Picadinho, essa distância parece ter sido ainda maior porque, ao longo das décadas, ele construiu uma imagem de homem interessado por livros, filosofia e cultura.
Um autodidata dentro do sistema
Por isso, talvez seja mais adequado falar em formação cultural e intelectual adquirida durante os anos de custódia do que simplesmente afirmar que Chico Picadinho “era um homem estudado”.
As fontes encontradas sustentam principalmente a imagem de um homem muito leitor, culto, articulado e interessado em filosofia e literatura. Não encontrei, porém, documentação suficientemente sólida para afirmar que ele tenha realizado uma formação acadêmica formal ou obtido determinado grau universitário durante a prisão.
Essa distinção é importante.
O que torna a história interessante não é um diploma.
É justamente o fato de que um homem que passou décadas privado de liberdade transformou a leitura em uma parte significativa de sua existência e desenvolveu um repertório intelectual que surpreendia quem conversava com ele.
A biblioteca atrás das grades
A imagem talvez mais simbólica seja esta:
Enquanto seu nome permanecia associado às páginas policiais dos jornais, Francisco Costa Rocha passava boa parte de sua vida cercado por livros, filosofia, literatura e discussões intelectuais.
O apelido “Chico Picadinho” tornou-se conhecido em todo o país por causa da brutalidade dos crimes.
Mas, dentro dos muros da instituição, existia também outro personagem: Francisco, o leitor.
Essa segunda dimensão não modifica o que aconteceu com suas vítimas e não deve ser usada para romantizar sua trajetória.
Ela apenas mostra que a personalidade humana pode apresentar contradições profundas — e que inteligência, cultura e conhecimento podem coexistir com comportamentos extremamente violentos.
É justamente essa contradição que faz com que o caso continue sendo estudado décadas depois.
O homem que entrou para a história policial brasileira como “Chico Picadinho” também construiu, atrás das grades, uma reputação de leitor voraz e de indivíduo interessado em filosofia, literatura e grandes ideias.
E talvez esse seja um dos capítulos menos conhecidos — e mais intrigantes — de sua longa história.
FONTES E REFERÊNCIAS
As informações históricas foram confrontadas com reportagens e registros da Veja, Folha de S.Paulo, Rede Globo/Linha Direta, UOL, Metrópoles, Band e estudos acadêmicos sobre o caso.
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