A história da travesti que construiu um império no submundo paulistano, comandou boates lendárias, enfrentou a violência das ruas e se tornou uma das personagens mais controversas da história LGBT brasileira
Andréa de Mayo tornou-se uma das figuras mais conhecidas da noite underground de São Paulo.
Poucas personagens da noite paulistana carregam uma história tão contraditória quanto Andréa de Mayo.
Para algumas pessoas que conviveram com ela, era uma espécie de mãe e protetora das travestis mais jovens. Para outras, era uma mulher temida, envolvida com um ambiente marcado por prostituição, violência, dívidas e disputas pelo controle das ruas.
Ela foi empresária, dona de boates, artista, personagem de televisão, militante e também uma das chamadas bombadeiras.
Sua trajetória atravessou mais de duas décadas da história de São Paulo e acabou sendo registrada por jornalistas, fotógrafos e pesquisadores.
A revista Trip chegou a descrevê-la como “a última cafetina-travesti romântica de São Paulo”.
Mas quem foi, afinal, Andréa de Mayo?
UMA SÃO PAULO QUE JÁ NÃO EXISTE
Para compreender Andréa, é preciso voltar às décadas de 1970, 1980 e 1990.
O centro de São Paulo possuía uma vida noturna extremamente intensa.
A região do Arouche, República, Amaral Gurgel e arredores reunia prostitutas, travestis, artistas, jornalistas, boêmios, criminosos, empresários e frequentadores de diferentes classes sociais.
Era um universo paralelo.
E, dentro dele, algumas travestis conquistaram um poder que dificilmente aparecia nos registros oficiais.
Andréa foi uma delas.
O livro Rainhas da Noite, do jornalista Chico Felitti, recupera justamente essa história esquecida. A obra acompanha três personagens que exerceram grande influência sobre o centro paulistano entre as décadas de 1970 e 2010: Jacqueline Welch, Andréa de Mayo e Cristiane Jordan (Cris Negão).
DO AROUCHE AOS PALCOS
Andréa nasceu em maio de 1950 e teve uma infância e juventude difíceis.
Segundo relatos reunidos por Lino Bocchini para a Trip, ela saiu de casa muito cedo e passou um período vivendo nas ruas da região do Largo do Arouche.
Trabalhou fazendo o que aparecesse: lavando carros, varrendo ruas e engraxando sapatos.
Mas havia outra coisa que chamava sua atenção:
o palco.
Ela tentou construir uma carreira artística e chegou a participar do Programa do Bolinha.
A televisão, porém, ainda era extremamente conservadora.
Sua aparência feminina e sua identidade de gênero dificultavam a entrada naquele mundo.
Andréa acabou encontrando outro caminho.
Antes de se tornar uma das grandes personagens da noite paulistana, Andréa tentou carreira artística.
A “VIAGEM DA BELEZA”
Em uma época na qual o Brasil oferecia pouquíssimas possibilidades de procedimentos de afirmação corporal para pessoas trans, algumas travestis viajavam para a Europa.
Andréa foi para Paris.
Segundo Chico Felitti, pesquisador de sua trajetória, foi durante essa viagem que ela passou por procedimentos para modificar o corpo e consolidou sua identidade como Andréa de Mayo.
A viagem acabou entrando para a memória das travestis brasileiras como uma espécie de “viagem da beleza”.
Era uma época completamente diferente da atual.
Não havia a estrutura de atendimento especializado que existe hoje e os procedimentos eram cercados de clandestinidade, improvisação e riscos.
GENI, DE CHICO BUARQUE
Andréa não abandonou completamente o sonho artístico.
Em 1979, chegou a interpretar Geni em uma montagem de Ópera do Malandro, de Chico Buarque.
O fato é particularmente importante porque demonstra que sua trajetória não se limitou à prostituição ou à noite.
Ela também procurou ocupar espaços artísticos.
Ao longo dos anos, tornou-se presença frequente em programas de televisão e concursos de transformistas.
Chegou inclusive a participar do Programa Livre, apresentado por Serginho Groisman, onde protagonizou um conhecido confronto verbal com o então deputado Afanásio Jazadji, crítico das pautas LGBT.
Andréa tinha algo que poucas pessoas conseguiam ignorar:
uma voz poderosa.
A RAINHA DO CENTRO

Foi, entretanto, no centro de São Paulo que Andréa construiu sua verdadeira fama.
Ela entrou no mundo da prostituição e passou a exercer influência sobre travestis que trabalhavam nas ruas.
A figura da “cafetina” era complexa.
Não se tratava simplesmente de uma mulher que administrava prostituição.
Em determinados contextos, essas figuras também ofereciam moradia, proteção e intermediação — ao mesmo tempo em que podiam cobrar dinheiro e exercer controle sobre as pessoas que estavam sob sua influência.
No caso de Andréa, relatos publicados ao longo dos anos apresentam exatamente essa dualidade.
Ela podia ser protetora e, ao mesmo tempo, extremamente temida.
A Trip registra relatos segundo os quais ela impunha uma espécie de ordem na região e intervinha quando travestis mais jovens eram vítimas de violência.
VAL-IMPROVISO: O PRIMEIRO GRANDE IMPÉRIO
Andréa se associou a Valdemir Tenório de Albuquerque, conhecido como Val, para criar a Val-Improviso.
A casa de shows ficava na região central e rapidamente se tornou um dos pontos importantes da noite.
E havia uma característica peculiar:
praticamente todo mundo podia aparecer por lá.
Travestis.
Miches.
Artistas.
Militares.
Boêmios.
Socialites.
Jornalistas.
Pessoas que simplesmente queriam conhecer aquele universo.
Segundo relatos reunidos pela Trip, até Cazuza frequentava o local.
A Val-Improviso funcionava como uma espécie de ponto de encontro depois que outros estabelecimentos fechavam.
PROHIBIDU'S: A BOATE QUE VIROU LENDA
Mais tarde, Andréa abriu sua própria casa:
PROHIBIDU'S
Localizada na região da Amaral Gurgel, embaixo do Minhocão, a boate se transformou em uma das casas mais famosas do underground paulistano.
ANDRÉA DE MAYO E SEU CÃOZINHO AL CAPONE
A Prohibidu's tornou-se um dos endereços mais emblemáticos da noite underground paulistana.
A lista de frequentadores era surpreendentemente diversa.
A casa recebia travestis, drags, DJs, artistas, clubbers, empresários, pessoas da alta sociedade e personagens do submundo.
Era uma mistura improvável.
E justamente por isso a Prohibidu's tornou-se lendária.
O LUGAR ONDE AS DIFERENÇAS SE ENCONTRAVAM
A jornalista Érika Palomino descreveu o público da Prohibidu's reunindo “bandidos, mocinhas, drags, semidrags, clubbers, DJs, travas e boys”, além de descolados, famosos, herdeiros e artistas.
Isso ajuda a entender a importância histórica da boate.
Não era apenas um estabelecimento noturno.
Era um lugar onde pessoas de universos sociais completamente diferentes podiam acabar dividindo o mesmo espaço.
A São Paulo daquela época tinha uma vida noturna que hoje parece quase ficção.
AL CAPONE: O CACHORRO QUE VIROU PERSONAGEM
Andréa tinha um companheiro inseparável: um pequinês chamado Al Capone.
O cachorro aparecia frequentemente ao seu lado e acabou fazendo parte da própria imagem pública da personagem.
Fotos de Andréa ao lado do animal ajudam a humanizar uma mulher que muitas vezes foi retratada apenas como uma figura assustadora do submundo.
Legenda: Al Capone, o pequinês inseparável de Andréa, aparece em diversos registros fotográficos de sua vida.
A MULHER QUE TAMBÉM ERA TEMIDA
A imagem de “mãezona” tinha outro lado.
Relatos publicados pela imprensa descrevem Andréa como uma mulher que não tolerava determinadas afrontas.
Segundo testemunhos reunidos pela Trip, ela era respeitada — e temida — por traficantes, michês, ladrões e outros personagens que circulavam pelo centro.
Também existem relatos de agressões e de conflitos violentos associados ao ambiente em que ela vivia.
É importante fazer uma distinção:
essas histórias pertencem a relatos de pessoas que conviveram com Andréa e a reportagens sobre sua trajetória; não devem ser automaticamente apresentadas como fatos judiciais comprovados.
Esse cuidado é especialmente importante quando se escreve sobre personagens que já morreram e não podem responder às acusações.
ANDRÉA E O SILICONE INDUSTRIAL
É aqui que a história fica ainda mais sombria.
Andréa também ficou conhecida como bombadeira, termo utilizado para pessoas que realizavam aplicações clandestinas de silicone industrial para modificar o corpo.
Reportagens posteriores relatam que ela própria aplicava silicone.
A Trip registrou que Andréa tinha mais de 10 litros de silicone industrial no corpo e descreveu sua relação complicada com o material.
O mais impressionante é que ela posteriormente desejou retirar o silicone.
E isso acabaria tendo consequências trágicas.
A OPERAÇÃO QUE TERMINOU EM TRAGÉDIA
Em maio de 2000, Andréa foi internada em uma clínica de cirurgia plástica em Moema para retirar silicone das nádegas e das coxas.
A cirurgia ocorreu em 15 de maio.
No dia seguinte, Andréa passou mal e morreu.
A reportagem publicada pela Folha de S.Paulo na época informou que o médico suspeitava de uma embolia, enquanto a perícia deveria determinar oficialmente a causa da morte.
Ela tinha 50 anos.
Sua morte encerrou uma das trajetórias mais extraordinárias da noite paulistana.
“FOI EMBORA SEM A BUNDA”
Existe uma frase que ficou particularmente marcada nos relatos sobre seus últimos momentos.
Segundo a reportagem da Trip, Kaká di Poli resumiu a tragédia dizendo que Andréa havia sonhado em retirar aquela parte do corpo e acabou morrendo justamente depois da cirurgia.
A frase é brutal, mas traduz a ironia trágica da história: Andréa passou boa parte da vida transformando o próprio corpo — e terminou a vida tentando desfazer parte dessa transformação.
UMA MULHER DE MUITAS FACES
Andréa de Mayo não cabe facilmente em uma única definição.
Ela foi:
artista.
Travesti.
Empresária.
Dona de boate.
Cafetina.
Bombadeira.
Militante.
Protetora.
Personagem televisiva.
Figura temida do centro de São Paulo.
E, acima de tudo, uma sobrevivente de uma época em que ser uma pessoa trans significava enfrentar obstáculos muito maiores do que os atuais.
O DINHEIRO E O PODER


Um dos aspectos mais fascinantes da história de Andréa é perceber que ela conseguiu transformar sua posição marginal em poder econômico.
Ela não ficou apenas nas ruas.
Construiu negócios.
Abriu casas noturnas.
Conseguiu patrimônio.
Relacionou-se com artistas e pessoas influentes.
E criou uma rede de pessoas que dependiam, de alguma maneira, de sua estrutura.
Para alguém que havia vivido nas ruas do Arouche, a transformação foi extraordinária.
O LADO FILANTRÓPICO
Existe ainda uma parte menos conhecida de sua trajetória.
Relatos reunidos pelo pesquisador Chico Felitti apontam que Andréa ajudava instituições de caridade e fazia doações.
Ela também teria ajudado instituições ligadas à atuação de Brenda Lee, importante personagem da história da população trans em São Paulo.
Isso acrescenta mais uma camada à personagem.
A mesma mulher descrita em relatos como extremamente dura também podia exercer solidariedade.
Essa contradição acompanha praticamente toda a sua biografia.
ANDRÉA NA TELEVISÃO
Andréa não ficou confinada ao underground.
Ela chegou à televisão brasileira.
Participou de concursos de transformistas e programas populares.
Também ficou conhecida por não se calar diante de comentários preconceituosos.
Sua participação no Programa Livre tornou-se especialmente lembrada pela discussão com Afanásio Jazadji.
Andréa de Mayo também levou suas opiniões e sua personalidade para a televisão brasileira.
O CENTRO DE SÃO PAULO E AS OUTRAS “RAINHAS”
Andréa não estava sozinha.
Antes dela, existiu Jacqueline Welch, conhecida também como Jacqueline Blá-Blá-Blá.
Depois veio Cris Negão.
A história das três é o eixo central de Rainhas da Noite, de Chico Felitti. A Companhia das Letras apresenta o livro como uma reconstrução da história dessas três personagens que exerceram influência sobre o centro de São Paulo durante décadas.
Jacqueline Welch, Andréa de Mayo e Cris Negão pertencem à história de uma geração que construiu suas próprias redes de poder no centro paulistano.
“RAINHAS DA NOITE”: O LIVRO QUE RESGATOU ESSA HISTÓRIA
Grande parte dessa história poderia ter desaparecido.
Documentos oficiais raramente registravam a vida dessas personagens de maneira completa.
Foi justamente essa lacuna que Chico Felitti procurou preencher em Rainhas da Noite.
O livro reconstrói as trajetórias de Jacqueline Welch, Andréa de Mayo e Cris Negão e utiliza suas histórias para contar também uma outra história de São Paulo: aquela vivida nas ruas, boates e espaços onde a comunidade LGBTQIA+ construiu suas próprias redes de sobrevivência.
FATO OU LENDA?
A história de Andréa está cheia de episódios extraordinários.
Alguns são documentados por jornais e entrevistas.
Outros aparecem através de lembranças de pessoas que conviveram com ela.
E outros foram sendo repetidos tantas vezes que acabaram adquirindo características de lenda urbana.
É justamente por isso que uma matéria séria precisa separar:
DOCUMENTADO
sua atuação na noite paulistana;
a Val-Improviso;
a Prohibidu's;
suas aparições na televisão;
sua participação artística;
sua atuação como figura pública;
sua morte após cirurgia para retirada de silicone.
RELATOS E MEMÓRIAS
histórias de proteção às travestis;
conflitos com criminosos;
episódios de violência;
histórias envolvendo cobranças e dívidas;
relatos sobre sua atuação como bombadeira.
Essa distinção deixa a matéria muito mais confiável.
O FIM DE UMA ERA
Depois da morte de Andréa, a região central de São Paulo continuou mudando.
A velha estrutura das cafetinas-travestis foi desaparecendo.
A noite mudou.
A prostituição mudou.
As boates mudaram.
A própria comunidade trans passou por transformações profundas.
Mas as histórias permaneceram.
E hoje Andréa de Mayo é lembrada como uma das personagens mais fascinantes e controversas desse período.
POR QUE ANDRÉA DE MAYO AINDA DESPERTA TANTO INTERESSE?
Talvez porque sua história reúna elementos que normalmente aparecem separados:
glamour + crime + boemia + prostituição + televisão + dinheiro + violência + preconceito + transformação corporal + mistério + sobrevivência.
É quase um roteiro de cinema.
Mas não é ficção.
É a história de uma pessoa real que viveu em uma São Paulo que desapareceu.
Uma São Paulo de boates escondidas sob o Minhocão, travestis dominando determinadas esquinas, artistas frequentando casas noturnas do centro e personagens que construíam seus próprios códigos de sobrevivência.
Andréa de Mayo foi uma das mulheres que dominaram esse universo.
E talvez seja justamente essa mistura de rainha, empresária, protetora e figura temida que fez seu nome sobreviver.
ANDRÉA DE MAYO EM UMA FRASE:
“Ela não apenas viveu no submundo paulistano — ela construiu um reino dentro dele.”
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