sexta-feira, 4 de setembro de 2026

BOMBADEIRAS: O PERIGOSO SUBMUNDO DO SILICONE INDUSTRIAL

BOMBADEIRAS: O SUBMUNDO DO SILICONE INDUSTRIAL QUE MARCOU A HISTÓRIA DE TRAVESTIS E MULHERES TRANS NO BRASIL

Entre a sobrevivência, a transformação do corpo, o poder nas ruas e os riscos de procedimentos clandestinos, a história das chamadas “bombadeiras” revela um dos capítulos mais controversos da noite LGBT brasileira.

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UMA HISTÓRIA QUE NÃO COMEÇA COM O CRIME, MAS COM A SOBREVIVÊNCIA

Durante décadas, pessoas trans e travestis brasileiras enfrentaram enormes dificuldades para conseguir acesso a tratamentos e procedimentos corporais realizados de maneira segura e regular.

Em diferentes períodos, especialmente entre as décadas de 1970 e 1990, a transformação corporal tornou-se uma questão central para muitas travestis. O corpo era também uma ferramenta de sobrevivência, identidade, trabalho e afirmação em uma sociedade profundamente preconceituosa.

Foi nesse cenário que surgiu e se consolidou o fenômeno das bombadeiraspessoas que, sem formação médica para realizar procedimentos invasivos, aplicavam substâncias para modificar o corpo, especialmente silicone industrial.

A prática tornou-se parte de uma história subterrânea da prostituição e da vida noturna de grandes cidades brasileiras, principalmente São Paulo e Rio de Janeiro.

Mas por trás do glamour, das boates e das histórias de poder existia também um enorme risco.


ANDRÉA DE MAYO: A “PODEROSA CHEFONA”

Quando se fala na história das bombadeiras e do submundo travesti paulistano, um nome se tornou praticamente lendário: Andréa de Mayo.

Nascida em 1950, Andréa foi uma das figuras mais conhecidas da noite paulistana e construiu uma trajetória que misturava entretenimento, prostituição, empreendedorismo, militância, proteção de travestis e também relatos de violência e exploração.

A imprensa e pesquisadores da história LGBT brasileira registraram a dimensão de seu poder no centro de São Paulo.

Andréa passou por experiências artísticas antes de se tornar uma das grandes personagens da noite. Na década de 1970, viajou para Paris em busca de possibilidades de transformação corporal, em uma época em que o acesso a procedimentos de afirmação corporal era extremamente limitado no Brasil. 

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Andréa de Mayo tornou-se uma das figuras mais conhecidas do underground paulistano e comandou a lendária boate Prohibidu's.


O IMPÉRIO DA PROHIBIDU'S

Andréa de Mayo não ficou conhecida apenas por sua atuação entre travestis.

Ela também construiu um verdadeiro império na noite.

Em parceria com Valdemir Tenório de Albuquerque, conhecido como Val, participou da criação da Val-Improviso, uma famosa casa de shows de travestis na região central de São Paulo.

Posteriormente, criou a Prohibidu's, na região da Amaral Gurgel.

A casa tornou-se um dos endereços mais conhecidos do underground paulistano.

Segundo reportagem de Erika Palomino publicada pela Folha de S.Paulo em 2000, a boate recebia personagens extremamente diferentes da noite paulistana: travestis, artistas, DJs, clubbers, profissionais do sexo, famosos e frequentadores de vários grupos sociais. 

A Prohibidu's funcionava madrugada adentro e chegou a se tornar um ponto de encontro depois que outras casas encerravam suas atividades.

Era uma São Paulo noturna muito diferente da atual.

E Andréa estava no centro desse universo.


ENTRE PROTEÇÃO E EXPLORAÇÃO

A história de Andréa de Mayo é especialmente complexa porque existem duas narrativas que convivem em sua biografia.

De um lado, relatos a apresentam como uma espécie de protetora das travestis que viviam nas ruas.

De outro, pesquisas e reportagens registram acusações de exploração, violência, cobrança de dívidas e controle sobre mulheres trans que trabalhavam sob sua influência.

O livro e projeto “Rainhas da Noite”, do jornalista Chico Felitti, ajudou a recuperar essa história através de relatos e memórias de personagens que viveram aquele período.

A obra apresenta Andréa como uma das grandes “rainhas” que construíram estruturas próprias de sobrevivência no centro de São Paulo. 

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A história das “rainhas” da noite paulistana foi recuperada por Chico Felitti em “Rainhas da Noite”.


E ONDE ENTRA A BOMBADEIRA?

A palavra “bombadeira” passou a ser utilizada para designar pessoas que realizavam aplicações clandestinas de silicone industrial ou outras substâncias destinadas à transformação corporal.

A prática não pode ser entendida apenas como uma história de criminosas aplicando produtos perigosos.

Ela também precisa ser analisada dentro de um contexto de exclusão social, preconceito, prostituição e dificuldade de acesso a serviços de saúde.

Isso ajuda a explicar por que algumas travestis procuravam procedimentos clandestinos mesmo sabendo que existiam riscos.

Na época, o corpo considerado mais feminino podia significar maior aceitação dentro de determinados círculos da prostituição e, consequentemente, possibilidade de conseguir mais clientes.

Era uma espécie de mercado brutal do próprio corpo.

Quanto mais próxima de um determinado padrão de feminilidade, maior poderia ser o valor atribuído àquela pessoa.


O SILICONE INDUSTRIAL NÃO É SILICONE MÉDICO

Essa distinção é fundamental.

Silicone industrial e implantes médicos de silicone não são a mesma coisa.

A Anvisa afirma expressamente que o silicone industrial não deve ser utilizado no corpo humano.

O produto é destinado a finalidades industriais, como limpeza, vedação e impermeabilização, e sua aplicação no organismo pode provocar deformações, dor, dificuldade de locomoção, infecções generalizadas, embolia pulmonar e até morte. 

Por isso, a expressão “silicone industrial” não deve ser confundida com próteses ou dispositivos médicos devidamente regularizados.

A própria Anvisa orienta que procedimentos estéticos sejam realizados com produto aprovado, em local autorizado e por profissional qualificado


ANDRÉA TAMBÉM RECORREU AO SILICONE INDUSTRIAL

Existe um detalhe particularmente impressionante na história de Andréa.

Uma reportagem da Folha de S.Paulo, publicada em 1994, registrou que ela havia recorrido ao silicone industrial depois de problemas com uma prótese implantada anteriormente.

Segundo a reportagem, o silicone industrial também acabou endurecendo e precisou ser retirado. 

Isso mostra que o problema não era apenas uma questão de “aplicar silicone em outras pessoas”.

A própria Andréa experimentou em seu corpo as consequências de procedimentos realizados com materiais inadequados.


UMA MORTE QUE TAMBÉM ENVOLVEU A RETIRADA DO SILICONE

A trajetória de Andréa terminou de maneira trágica.

Em maio de 2000, ela foi internada para retirar silicone de suas nádegas e coxas.

Após a cirurgia, passou mal e morreu na clínica. A Folha de S.Paulo informou na época que havia suspeita de embolia, enquanto a causa da morte seria objeto de avaliação pericial. 

Assim, existe uma ironia trágica em sua história: a mulher que se tornou símbolo de um mundo construído em torno da transformação corporal morreu justamente durante uma cirurgia relacionada à retirada do silicone.

Sua morte ajudou a transformar Andréa de Mayo definitivamente em uma personagem histórica da noite paulistana.


SKALET: QUANDO UMA ANTIGA PRÁTICA VOLTOU ÀS MANCHETES POLICIAIS

Décadas depois da época de maior fama de Andréa de Mayo, o termo “bombadeira” voltou ao noticiário policial.

Em março de 2025, uma mulher conhecida como Skalet foi presa em São Paulo durante uma investigação envolvendo procedimentos estéticos clandestinos realizados em pessoas trans e travestis.

Segundo a Polícia Civil, a investigação estava relacionada à morte de uma cliente, Cristiane Andrea da Silva, ocorrida em Ponta Grossa, no Paraná, em outubro de 2024.

A suspeita foi investigada por homicídio e exercício ilegal da medicina. As autoridades também apontaram uma possível relação com outro caso ocorrido em Marília, em 2019. Essas acusações devem ser tratadas como alegações da investigação, e não como condenação definitiva. 

O caso chamou atenção porque, segundo as investigações divulgadas na época, Skalet teria realizado procedimentos em diferentes estados brasileiros.


O CASO DANYELLA MORENO

Outro episódio que chamou atenção ocorreu no estado do Rio de Janeiro.

Em agosto de 2020, policiais da Delegacia do Consumidor prenderam uma mulher identificada pela imprensa como Danyella Morenno, na Baixada Fluminense.

Segundo a investigação divulgada pelo jornal O Dia, ela realizava aplicações de silicone industrial em clientes havia aproximadamente dez anos e atendia pessoas do Rio de Janeiro e de Minas Gerais.

Os policiais encontraram no endereço materiais que, segundo a investigação, seriam utilizados nos procedimentos, incluindo seringas, anestésicos e silicone industrial. 

O episódio demonstra que a prática não ficou restrita à história antiga da noite paulistana.

Ela continuou existindo clandestinamente em diferentes regiões do país.


POR QUE ESSAS PESSOAS PROCURAVAM AS BOMBADEIRAS?

Essa talvez seja a parte mais importante da história.

É fácil olhar para esses casos apenas como histórias policiais.

Mas existe uma questão social muito maior.

Durante décadas, muitas travestis encontraram:

  • discriminação;

  • dificuldade de conseguir emprego formal;

  • rejeição familiar;

  • violência nas ruas;

  • dificuldade de acesso à saúde;

  • prostituição como uma das poucas alternativas de sobrevivência;

  • enorme pressão estética dentro do próprio mercado sexual.

Nesse ambiente, procedimentos corporais clandestinos prosperaram.

A bombadeira ocupava um espaço que deveria ser preenchido por serviços de saúde seguros.

E justamente por isso a história precisa ser contada com cuidado: não se trata apenas de quem aplicava, mas também de por que tantas pessoas se sentiam obrigadas a procurar esse tipo de procedimento.


AS “RAINHAS DA NOITE”

É impossível falar sobre esse universo sem mencionar “Rainhas da Noite”, de Chico Felitti.

A obra recupera a história de personagens como Andréa de Mayo, Jacqueline Welch e Cris Negão, mostrando como essas mulheres construíram estruturas próprias de poder e sobrevivência no centro de São Paulo a partir dos anos 1970.

A obra descreve Andréa como empresária, proprietária de boates, dona de imóveis e também como “bombadeira”. 

O livro é particularmente interessante porque ajuda a retirar essas personagens do simples rótulo de “criminosas” ou “figuras do submundo”.

Elas também foram personagens históricas da comunidade trans brasileira, em uma época na qual praticamente não existiam as estruturas de proteção e visibilidade que existem hoje.


UMA HISTÓRIA DE GLAMOUR, MEDO E SOBREVIVÊNCIA

A história das bombadeiras é contraditória.

Existe o glamour das boates.

Existem os shows.

Existem as roupas extravagantes.

Existem as histórias de festas que atravessavam a madrugada.

Existe o poder que algumas dessas mulheres conquistaram.

Mas também existem as ruas, a violência, a exploração, as dívidas, as aplicações clandestinas e as mortes.

É justamente essa mistura que torna essa história tão fascinante e, ao mesmo tempo, tão dolorosa.

Andréa de Mayo representa talvez o exemplo mais emblemático dessa contradição.

Empresária, personagem da noite, militante, protetora para algumas e figura temida para outras — Andréa tornou-se uma das personagens mais controversas da história LGBT paulistana.


O LEGADO

Hoje, olhar para essa história significa compreender o quanto a população trans brasileira precisou criar suas próprias redes de sobrevivência.

Algumas dessas redes produziram solidariedade.

Outras produziram exploração.

Algumas deram origem a boates lendárias.

Outras terminaram em delegacias e hospitais.

E algumas histórias terminaram tragicamente.

O termo “bombadeira”, portanto, carrega muito mais do que a ideia de alguém que aplica silicone clandestinamente.

Ele representa um período em que a transformação corporal de travestis e mulheres trans acontecia muitas vezes fora do sistema de saúde, na clandestinidade e sob enorme risco.

E talvez seja justamente por isso que essa história precise ser lembrada: não para romantizar o perigo, mas para entender por que ele existiu e por que tantas pessoas chegaram a correr riscos tão extremos para conseguir transformar seus próprios corpos.


⚠️ IMPORTANTE

A aplicação de silicone industrial no corpo humano é considerada pela Anvisa uma prática extremamente perigosa. A Agência informa que o produto não deve ser utilizado no corpo humano e recomenda que quem tenha recebido esse tipo de aplicação procure avaliação médica, mesmo que não apresente sintomas. 

Esta matéria tem finalidade histórica e não constitui incentivo ou orientação para realização de procedimentos clandestinos.

PARA SABER MAIS

Chico Felitti — Rainhas da Noite
A obra é uma excelente referência para conhecer a história das grandes personagens trans que dominaram o centro de São Paulo durante décadas. 
DOCUMENTÁRIO 
BOMBADEIRA

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