JOGO DO BICHO
A fascinante história do jogo que nasceu em um zoológico e se espalhou pelo Brasil
Uma ideia criada para salvar um zoológico no Rio de Janeiro acabou dando origem a um dos fenômenos mais curiosos da cultura popular brasileira.
Há mais de 130 anos, animais, números, sorte, dinheiro, superstição e clandestinidade começaram a se misturar nas ruas do Rio de Janeiro.
O resultado foi o nascimento do Jogo do Bicho.
Hoje, a expressão faz parte do vocabulário brasileiro. Mas poucas pessoas conhecem a história por trás dela.
Quem criou?
Por que foram escolhidos animais?
Como um simples sorteio de zoológico virou uma enorme rede de apostas?
E como uma atividade proibida conseguiu sobreviver por mais de um século?
Prepare-se para conhecer uma das histórias mais curiosas do Brasil.
1. ANTES DO JOGO: O ZOOLÓGICO DE VILA ISABEL
A história começa no Rio de Janeiro do século XIX.
Em 1888, João Batista Viana Drummond, posteriormente conhecido como Barão de Drummond, inaugurou um jardim zoológico em Vila Isabel.
O local possuía animais, jardins, lagos e áreas de passeio.
Naquele período, visitar um zoológico era uma experiência completamente diferente daquela que conhecemos atualmente.
Para muitas pessoas, observar animais exóticos era uma verdadeira novidade.
O empreendimento chegou a receber grande quantidade de visitantes.
Mas a situação financeira do zoológico começou a se complicar.
Manter animais, funcionários e toda a estrutura custava caro.
Foi então que o Barão de Drummond teve uma ideia inusitada.
2. QUEM FOI O BARÃO DE DRUMMOND?
João Batista Viana Drummond nasceu em 1825 e tornou-se uma figura importante do Rio de Janeiro.
Empresário e proprietário do zoológico de Vila Isabel, recebeu o título de Barão de Drummond.
Sua preocupação com a sobrevivência financeira do zoológico acabaria produzindo uma consequência inesperada.
Ele precisava encontrar uma maneira de atrair mais visitantes.
Foi assim que surgiu a ideia de associar os ingressos a animais.
Ninguém poderia imaginar que aquela estratégia acabaria se transformando em uma das práticas de aposta mais famosas do Brasil.
3. A IDEIA QUE DEU ORIGEM AO JOGO
Em 1892, o zoológico passou a utilizar uma forma de sorteio envolvendo animais.
A lógica era relativamente simples.
O visitante comprava seu ingresso e recebia uma identificação relacionada a um dos animais.
Ao final do dia, um animal era escolhido.
Se o animal correspondente ao bilhete fosse sorteado, o visitante recebia um prêmio.
A iniciativa ajudava a aumentar o interesse do público pelo zoológico.
O que começou como uma estratégia promocional, porém, rapidamente ganhou vida própria.
As pessoas passaram a se interessar mais pelo resultado do que pelo próprio passeio entre os animais.
E então aconteceu algo que o Barão de Drummond provavelmente não havia planejado:
o jogo começou a sair do zoológico.
4. QUANDO OS BICHOS GANHARAM AS RUAS
A popularidade cresceu rapidamente.
Pessoas começaram a apostar nos animais mesmo sem necessariamente frequentar o zoológico.
O sistema passou a ser reproduzido fora de seus limites originais.
Aos poucos, apareceram intermediários responsáveis por receber apostas e transmitir resultados.
O jogo deixou de ser uma atração ligada a um jardim zoológico.
Transformou-se em uma atividade popular.
E os animais passaram a representar muito mais do que simplesmente criaturas expostas em um parque.
Eles começaram a representar sorte, dinheiro e esperança de ganhar um prêmio.
5. OS 25 ANIMAIS
A estrutura tradicional do jogo é formada por 25 animais.
Cada animal corresponde a um grupo de quatro números.
O conjunto vai do número 01 ao 00, totalizando 100 números.
Entre os animais estão:
01–04 — Avestruz
05–08 — Águia
09–12 — Burro
13–16 — Borboleta
17–20 — Cachorro
21–24 — Cabra
25–28 — Carneiro
29–32 — Camelo
33–36 — Cobra
37–40 — Coelho
41–44 — Cavalo
45–48 — Elefante
49–52 — Galo
53–56 — Gato
57–60 — Jacaré
61–64 — Leão
65–68 — Macaco
69–72 — Porco
73–76 — Pavão
77–80 — Peru
81–84 — Touro
85–88 — Tigre
89–92 — Urso
93–96 — Veado
97–00 — Vaca
A associação entre animais e números tornou-se tão conhecida que acabou entrando definitivamente na cultura popular.
6. SONHOS, SUPERSTIÇÃO E O "BICHO"
Uma das características mais curiosas do jogo foi sua relação com a superstição.
Ao longo do tempo, criou-se a tradição popular de relacionar sonhos e acontecimentos do cotidiano aos animais.
Uma pessoa poderia sonhar com um animal e interpretar aquilo como um possível sinal de sorte.
Outras pessoas acreditavam que determinados acontecimentos poderiam indicar qual animal escolher.
Essa associação transformou o jogo em algo que ultrapassava a simples aposta.
Ele passou a fazer parte do imaginário popular.
O "bicho" estava nos sonhos, nas conversas, nas brincadeiras e nas superstições.
7. QUANDO O JOGO FOI PROIBIDO
O crescimento do jogo chamou a atenção das autoridades.
A prática passou a ser combatida e, ao longo do tempo, diferentes leis estabeleceram punições.
Em 1941, a Lei das Contravenções Penais passou a tratar expressamente do jogo do bicho.
O artigo 58 estabeleceu punições relacionadas à exploração da atividade.
Mesmo assim, a proibição não conseguiu acabar com o jogo.
Ele simplesmente passou a funcionar clandestinamente.
E foi justamente nesse ambiente que sua organização começou a ficar cada vez mais sofisticada.
8. OS "BICHEIROS"
Com a expansão da atividade, surgiram os chamados banqueiros do bicho.
Eles administravam estruturas responsáveis por receber apostas, organizar resultados e distribuir pagamentos.
Alguns chegaram a acumular grandes fortunas.
O fenômeno ganhou uma dimensão que ultrapassava as pequenas apostas individuais.
Em determinadas regiões, o jogo passou a ser controlado por grupos organizados.
Alguns dos personagens ligados ao universo do jogo tornaram-se figuras públicas extremamente conhecidas.
Um dos nomes mais famosos foi Castor de Andrade, personagem profundamente associado à história do jogo do bicho e do carnaval carioca.
9. O JOGO DO BICHO E O CARNAVAL
Talvez nenhuma outra manifestação cultural tenha se relacionado tanto com o universo do jogo do bicho quanto o carnaval carioca.
Ao longo do século XX, pessoas ligadas ao jogo passaram a financiar ou apoiar escolas de samba.
Isso ajudou algumas agremiações a obter recursos para desfiles cada vez mais grandiosos.
O resultado foi uma relação controversa.
De um lado, havia o financiamento do carnaval.
Do outro, a atividade clandestina e a repressão policial.
Essa relação transformou o jogo do bicho em um fenômeno que envolvia cultura, dinheiro, poder e criminalidade.
10. O JOGO NAS PÁGINAS DOS JORNAIS
Durante décadas, o jogo do bicho apareceu frequentemente nas páginas dos jornais.
As notícias tratavam de prisões, apreensões, investigações e personagens ligados às bancas.
Mas o jogo também aparecia de maneira indireta em histórias de cotidiano.
A existência de uma atividade proibida que continuava funcionando abertamente em determinadas regiões tornou-se uma das grandes contradições da vida urbana brasileira.
11. E O QUE ACONTECEU COM O ZOOLÓGICO?
Aqui está uma das maiores ironias dessa história.
O zoológico que deu origem ao jogo não existe mais.
O antigo Jardim Zoológico de Vila Isabel foi fechado em 1940.
O espaço posteriormente passou por transformações e atualmente é conhecido como Parque Recanto do Trovador.
O local continua guardando a memória daquele zoológico onde tudo começou.
Mas os animais que um dia estavam atrás das grades ganharam uma vida completamente diferente.
Eles passaram a existir nos números, nos sonhos e na imaginação dos brasileiros.
12. UM JOGO QUE SOBREVIVEU AO TEMPO
Poucas práticas populares brasileiras conseguiram sobreviver por tanto tempo apesar das proibições.
O jogo atravessou:
Império → República → Era Vargas → Ditadura → redemocratização → século XXI.
Mudaram os costumes.
Mudaram as cidades.
Mudaram as tecnologias.
Mas o sistema baseado nos animais continuou sendo reconhecido.
A forma de comunicação também evoluiu.
O que antes dependia de pequenos bilhetes e anotações passou a conviver com novas formas de comunicação e organização.
13. O BICHO NA ERA DIGITAL
No século XXI, a tecnologia transformou praticamente todas as formas de comunicação.
O universo das apostas também passou por mudanças.
A internet e os telefones celulares facilitaram a circulação de informações e resultados.
Porém, a existência de novas tecnologias não mudou a situação jurídica do jogo do bicho no Brasil.
A prática tradicional continua sendo tratada como contravenção penal.
14. AFINAL, O JOGO DO BICHO É LEGAL?
Não.
Apesar de sua enorme popularidade e de sua presença histórica na cultura brasileira, o jogo do bicho não foi legalizado nacionalmente.
A prática continua enquadrada na Lei das Contravenções Penais.
Isso significa que existe uma diferença importante entre ser culturalmente conhecido e ser legalizado.
O jogo do bicho conseguiu sobreviver por décadas justamente em uma espécie de contradição: é conhecido por praticamente todo o país, mas continua juridicamente proibido.
15. AS CURIOSIDADES MAIS INCRÍVEIS
CURIOSIDADE
- O jogo nasceu como uma forma de atrair público para um zoológico.
- Sua origem está ligada ao Barão de Drummond.
- A estrutura tradicional utiliza 25 animais.
- Cada animal representa quatro números.
- O avestruz é tradicionalmente apontado como o primeiro animal sorteado.
- O jogo passou a ter uma relação histórica muito forte com o carnaval carioca.
- Durante décadas, o jogo apareceu frequentemente nas páginas policiais dos jornais.
- O antigo zoológico de Vila Isabel fechou em 1940.
- O jogo continua sendo conhecido em praticamente todas as regiões do Brasil, mesmo sendo uma contravenção penal.
16. A GRANDE IRONIA DA HISTÓRIA
Talvez a parte mais fascinante dessa história seja justamente sua ironia.
O Barão de Drummond queria atrair pessoas para ver os animais.
Criou uma estratégia envolvendo sorteio.
A estratégia funcionou tão bem que o sorteio se tornou mais famoso do que o próprio zoológico.
O zoológico desapareceu.
Mas o jogo continuou.
Os animais deixaram de estar apenas dentro de jaulas e passaram a viver em outro lugar:
na cultura popular brasileira.
17. MAIS DO QUE UM JOGO
O Jogo do Bicho é, ao mesmo tempo, uma história sobre:
sorte, superstição, cultura popular, economia informal, repressão, carnaval e transformação urbana.
Por isso, estudar sua origem é também observar como o Brasil mudou ao longo de mais de um século.
Uma pequena experiência criada em um zoológico acabou atravessando gerações.
UMA LINHA DO TEMPO
1888 — Inauguração do Jardim Zoológico de Vila Isabel.
1892 — Surge o sistema de sorteio associado aos animais.
Final do século XIX — A prática começa a se espalhar para além do zoológico.
Início do século XX — O jogo ganha popularidade no Rio de Janeiro.
1938 — A legislação passa a tratar expressamente do jogo do bicho.
1940 — O antigo Jardim Zoológico de Vila Isabel é fechado.
1941 — A Lei das Contravenções Penais estabelece punições relacionadas ao jogo.
Décadas seguintes — O jogo se espalha pelo Brasil e passa a ter forte relação com o carnaval carioca.
Século XXI — A tradição permanece presente na cultura popular brasileira.