ANGRA — ANGELS CRY: O ÁLBUM QUE COLOCOU O METAL BRASILEIRO NO MAPA DO MUNDO
Há discos que simplesmente pertencem à história da música. E há aqueles que parecem carregar dentro de si o momento exato em que uma banda encontra sua identidade.
“Angels Cry”, álbum de estreia do Angra, lançado originalmente em 1993, pertence a essa segunda categoria.
O disco não foi apenas o primeiro trabalho de uma jovem banda brasileira de heavy metal. Ele apresentou uma combinação pouco comum para a época: peso, velocidade, técnica, melodias grandiosas, vocais líricos, elementos de música clássica e referências à música brasileira.
Gravado na Alemanha, o álbum ajudou a projetar o Angra para além do Brasil e abriu caminho para uma carreira internacional que faria da banda um dos nomes mais conhecidos do metal brasileiro.
E talvez seja justamente isso que torne Angels Cry tão especial: ele soa ambicioso mesmo sendo um primeiro álbum.
O NASCIMENTO DO ANGRA
O Angra surgiu no início dos anos 1990, em um momento em que o heavy metal brasileiro já possuía nomes importantes, mas ainda buscava maior espaço internacional.
No núcleo que gravaria Angels Cry estavam:
André Matos — vocais, piano e teclados;
Rafael Bittencourt — guitarra;
Kiko Loureiro — guitarra;
Luís Mariutti — baixo.
A formação do álbum, entretanto, tem uma particularidade importante: a bateria não foi executada por um único integrante da banda.
O baterista original Marco Antunes viajou com o grupo para a Alemanha, mas acabou não participando das gravações definitivas. A maior parte das baterias foi registrada pelo músico alemão Alex Holzwarth, enquanto Thomas Nack tocou na faixa que posteriormente ficou conhecida pela interpretação do Angra para “Wuthering Heights”.
Esse detalhe é uma das curiosidades mais interessantes da história do disco.
UM PRIMEIRO ÁLBUM GRAVADO NA ALEMANHA
Para uma banda brasileira que estava começando, gravar o primeiro álbum na Alemanha era algo bastante significativo.
As gravações principais aconteceram no Kai Hansen Studios, em Hamburgo, entre julho e agosto de 1993. Depois foram realizadas gravações adicionais e etapas de mixagem no Horus Sound Studio, em Hannover.
O nome do estúdio também não era uma coincidência.
Kai Hansen, uma das figuras fundamentais do heavy metal alemão e integrante do Helloween e posteriormente do Gamma Ray, acabaria tendo participação especial no próprio álbum.
O responsável pela produção foi Charlie Bauerfeind, trabalhando ao lado de Sascha Paeth.
A dupla teria papel importante na construção do som de Angels Cry, especialmente na combinação entre instrumentos de metal, teclados, programações e arranjos orquestrais.
QUANDO O HEAVY METAL ENCONTRA A MÚSICA CLÁSSICA
Talvez uma das características que mais diferenciam Angels Cry seja a presença constante da música clássica.
O disco começa com “Unfinished Allegro”, baseada no primeiro movimento da Sinfonia nº 8 de Franz Schubert, conhecida justamente como a “Sinfonia Inacabada”.
E isso já funciona como uma espécie de declaração de intenções.
Antes mesmo de a banda apresentar seu peso, o ouvinte é colocado diante de uma atmosfera sinfônica.
O Angra não queria simplesmente fazer heavy metal rápido.
A proposta envolvia misturar diferentes universos musicais.
“CARRY ON” — A MÚSICA QUE VIROU UM HINO
Se existe uma música que se tornou imediatamente associada a Angels Cry, essa música é “Carry On”.
Com uma introdução marcante, guitarras velozes, mudanças de dinâmica e os vocais característicos de André Matos, a faixa se tornou uma das músicas mais conhecidas do Angra.
Ela também recebeu videoclipe e se transformou em uma das principais portas de entrada para quem descobria a banda.
“Carry On” demonstra perfeitamente uma das fórmulas que fariam o Angra se destacar:
velocidade + melodia + técnica + dramaticidade.
A música não depende apenas da velocidade das guitarras. Existe uma construção melódica muito cuidadosa, e a voz de André Matos funciona quase como mais um instrumento dentro da composição.
“TIME”
Outra faixa que ganhou destaque foi “Time”.
A música apresenta uma atmosfera mais contemplativa e demonstra que o Angra não pretendia construir sua identidade apenas através de músicas rápidas.
Assim como “Carry On”, “Time” também ganhou videoclipe.
Essa alternância entre momentos de força e passagens mais melódicas ajudava a criar uma característica que acompanharia a banda durante sua carreira.
🪽 “ANGELS CRY” — A FAIXA-TÍTULO
A faixa que dá nome ao álbum também resume muito da proposta do disco.
“Angels Cry” possui elementos de power metal, passagens instrumentais e referências à música clássica.
Um dos detalhes mais interessantes está na utilização de um trecho baseado no Caprice nº 24 de Niccolò Paganini.
Paganini é conhecido historicamente pela enorme dificuldade técnica de suas composições para violino.
Ao trazer uma referência tão associada ao virtuosismo para dentro do universo do heavy metal, o Angra reforçava uma característica que estaria presente em todo o álbum: a técnica não estava ali apenas para impressionar; fazia parte da identidade musical.
🎻 “EVIL WARNING” E VIVALDI
Outra demonstração dessa mistura aparece em “Evil Warning”.
A música incorpora uma passagem relacionada a “Winter”, de As Quatro Estações, de Antonio Vivaldi.
É interessante perceber como essas referências não aparecem simplesmente como enfeites.
Elas são incorporadas ao universo do metal.
O resultado é uma espécie de diálogo entre séculos diferentes:
Vivaldi → música clássica → heavy metal brasileiro dos anos 1990.
“NEVER UNDERSTAND” E UMA SURPRESA BRASILEIRA
Talvez uma das curiosidades mais deliciosas do álbum esteja em “Never Understand”.
A introdução apresenta uma referência a “Asa Branca”, composição associada a Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira.
E aqui aparece algo especialmente interessante.
Enquanto muitas bandas buscavam inspiração quase exclusivamente no metal europeu, o Angra colocava uma referência reconhecivelmente brasileira dentro de uma produção internacional.
É uma pequena passagem, mas possui enorme valor simbólico.
Porque demonstra que a banda podia dialogar com Helloween, música clássica, hard rock e power metal sem abandonar completamente suas próprias referências culturais.
“WUTHERING HEIGHTS” — A HOMENAGEM A KATE BUSH
Uma das maiores surpresas de Angels Cry é a presença de “Wuthering Heights”, composição originalmente interpretada por Kate Bush.
A música havia sido lançada por Bush em 1978 e era bastante diferente do que normalmente se esperaria encontrar em um álbum de power metal.
O Angra, entretanto, transformou a canção para dentro de sua própria linguagem.
A faixa também possui uma particularidade na bateria: Thomas Nack foi responsável pela bateria nessa gravação.
A escolha da música revela outro aspecto da personalidade musical do Angra:
a banda não enxergava fronteiras tão rígidas entre estilos.
Uma composição associada ao art rock e ao pop sofisticado de Kate Bush poderia ser transformada em uma interpretação metal.
ANDRÉ MATOS: VOZ, PIANO E TECLADOS
Falar de Angels Cry também significa falar de André Matos.
Além de assumir os vocais, André participou diretamente da construção da identidade musical do álbum através do piano e dos teclados.
Sua formação e interesse pela música clássica ajudaram a explicar a presença tão marcante desses elementos no trabalho.
A voz de André possuía características muito particulares: agudos, potência, dramatização e uma interpretação que muitas vezes aproximava o heavy metal de uma estética operística.
Em Angels Cry, isso aparece de maneira muito evidente.
A voz não está simplesmente acompanhando as guitarras.
Ela está integrada à própria arquitetura das músicas.
KIKO LOUREIRO E RAFAEL BITTENCOURT
Outro elemento fundamental é a dupla de guitarras formada por Kiko Loureiro e Rafael Bittencourt.
As guitarras de Angels Cry possuem uma combinação de riffs pesados, solos rápidos, harmonizações e melodias.
O interessante é que o álbum não utiliza a guitarra apenas como instrumento de acompanhamento.
Em vários momentos ela assume protagonismo.
E existe ainda uma participação especial que se tornou histórica.
Na faixa “Never Understand”, aparecem solos adicionais de:
Kai Hansen;
Sascha Paeth;
Dirk Schlächter.
Ou seja: uma música do primeiro álbum do Angra reuniu músicos ligados a importantes capítulos do metal alemão.
KAI HANSEN NO PRIMEIRO ÁLBUM DO ANGRA
A presença de Kai Hansen é particularmente significativa.
Para uma banda brasileira que estava começando, contar com a participação de um músico associado ao desenvolvimento do power metal europeu representava uma ligação importante com aquela cena.
Hansen participou dos solos de guitarra da faixa “Never Understand”, ao lado de Sascha Paeth e Dirk Schlächter.
É uma daquelas participações que fazem o fã olhar novamente para os créditos do CD.
UMA CURIOSIDADE: RICARDO CONFESSORI APARECE NAS FOTOS, MAS NÃO TOCOU NO ÁLBUM
Essa é uma das curiosidades que facilmente passa despercebida.
Ricardo Confessori aparece nas fotos internas de algumas edições relacionadas ao álbum, mas não foi o baterista das gravações de Angels Cry.
A maior parte das baterias do disco foi registrada por Alex Holzwarth.
Isso acabou criando, ao longo dos anos, algumas confusões sobre quem efetivamente tocou no disco.
Os créditos de gravação ajudam a separar a formação fotografada da formação efetivamente responsável pelo áudio.
A CHEGADA DO ÁLBUM AO PÚBLICO
Angels Cry foi lançado originalmente no Japão em 1993 e posteriormente chegou a outros mercados.
A edição japonesa alcançou a 17ª posição na parada de álbuns da Oricon, um dado particularmente expressivo para uma banda brasileira estreante.
O lançamento internacional ajudou a ampliar a presença do Angra fora do Brasil.
E isso acontecia em uma época em que a internet ainda não tinha a importância que teria posteriormente para divulgação musical.
Não havia redes sociais.
Não havia streaming.
Não havia YouTube.
Para uma banda brasileira conquistar espaço internacional naquele período, era necessário contar com gravadora, imprensa especializada, revistas, lojas de discos, shows e, principalmente, o boca a boca entre os fãs.
AS FAIXAS DE “ANGELS CRY”
A edição original apresenta uma sequência que mostra exatamente essa mistura de referências:
Unfinished Allegro
Carry On
Time
Angels Cry
Stand Away
Never Understand
Wuthering Heights
Streets of Tomorrow
Evil Warning
Lasting Child
A duração total do álbum é de aproximadamente 55 minutos e 48 segundos na edição original.
“STAND AWAY”
“Stand Away” é outra faixa que evidencia o lado mais melódico da banda.
O piano e os teclados têm papel importante, criando uma atmosfera diferente das faixas mais velozes.
É justamente essa alternância que faz o álbum funcionar como uma experiência completa.
Não existe apenas:
guitarra + velocidade + bateria.
Existe também espaço para:
piano + voz + melodia + arranjos + atmosfera.
“STREETS OF TOMORROW”
“Streets of Tomorrow” mantém a característica melódica do álbum, mas acrescenta uma atmosfera mais reflexiva.
É uma das músicas que ajudam a mostrar que Angels Cry não pretendia ser apenas uma demonstração de virtuosismo instrumental.
Existe preocupação com composição, narrativa e dinâmica.
“LASTING CHILD”
O encerramento original fica por conta de “Lasting Child”, uma composição dividida em duas partes:
“The Parting Words” e “Renaissance”.
A música fecha o álbum de maneira bastante ambiciosa.
E mais uma vez a música clássica aparece como referência: a abertura de “The Parting Words” utiliza uma adaptação de um tema das Variations sérieuses, Op. 54, de Felix Mendelssohn.
É quase como se o álbum terminasse onde começou:
com o rock e o metal conversando diretamente com a música clássica.
A CAPA DO ÁLBUM
A imagem de um anjo sobre uma paisagem de aparência sombria e avermelhada combina perfeitamente com o título.
A própria concepção da capa está associada a André Matos, embora existam relatos posteriores sobre divergências envolvendo a concepção da imagem.
A capa acabou se tornando uma das imagens mais reconhecíveis da primeira fase do Angra.
CURIOSIDADES SOBRE “ANGELS CRY”
1. O álbum começa com Schubert
“Unfinished Allegro” é baseado no primeiro movimento da Sinfonia nº 8, de Franz Schubert.
2. Paganini aparece na faixa-título
“Angels Cry” utiliza uma passagem baseada no Caprice nº 24, de Paganini.
3. Vivaldi aparece em “Evil Warning”
A música contém uma passagem relacionada a “Winter”, de As Quatro Estações.
4. Luiz Gonzaga também está presente
“Never Understand” começa com uma referência a “Asa Branca”.
5. Kate Bush virou metal
“Wuthering Heights” é uma versão da famosa música de Kate Bush.
6. Kai Hansen participou
O músico alemão tocou guitarra em “Never Understand”.
7. Alex Holzwarth tocou a maior parte das baterias
Ele participou das faixas principais do álbum, enquanto Thomas Nack tocou em “Wuthering Heights”.
8. Confessori aparece nas fotos
Ricardo Confessori aparece em material fotográfico de algumas edições, embora não tenha tocado nas gravações do álbum.
9. O Japão teve papel importante
O lançamento japonês aconteceu em 1993 e o álbum chegou ao 17º lugar na Oricon.
UM DISCO QUE NÃO ENVELHECEU
Mais de três décadas depois, talvez a maior força de Angels Cry esteja justamente naquilo que poderia ter sido seu maior risco.
O álbum não tentou copiar uma única fórmula.
Ele colocou dentro do mesmo trabalho:
heavy metal, power metal, música clássica, piano, elementos sinfônicos, referências brasileiras, virtuosismo de guitarra e uma interpretação vocal extremamente característica.
E fez isso em um momento em que o Angra ainda estava dando seus primeiros passos.
Por isso, ouvir Angels Cry atualmente é também ouvir um retrato de uma época em que um grupo brasileiro precisou atravessar o oceano para registrar seu primeiro grande trabalho e provar que o metal produzido no Brasil poderia dialogar diretamente com o cenário internacional.
QUANDO OS ANJOS CHORARAM, O METAL BRASILEIRO FOI OUVIDO
Angels Cry não foi apenas o começo da discografia do Angra.
Foi o ponto de partida de uma identidade.
Uma identidade em que André Matos colocava sua voz e seus teclados, Kiko Loureiro e Rafael Bittencourt construíam as camadas de guitarras, Luís Mariutti sustentava o peso do baixo e músicos convidados ajudavam a transformar aquele projeto brasileiro em uma produção de alcance internacional.
O mais impressionante é que o disco não precisou abandonar suas origens para buscar reconhecimento fora do país.
Ao contrário.
Em meio às influências europeias e à música clássica, havia espaço até para “Asa Branca”.
E talvez esteja aí uma das melhores maneiras de compreender Angels Cry:
um álbum brasileiro olhando para o mundo sem deixar de carregar consigo aquilo que o tornava brasileiro.
Lançado em 1993, ele permanece como um daqueles discos que não representam apenas uma banda, mas um momento inteiro da história do rock e do metal brasileiro.
E quando os primeiros acordes de “Unfinished Allegro” começam, antes mesmo de André Matos cantar uma única palavra, já está sendo anunciada uma nova fase.
Os anjos estavam prestes a chorar.
E o mundo começaria a ouvir o Angra.
FICHA DO ÁLBUM
Fontes consultadas: registros de créditos e gravação do álbum no MusicBrainz e Encyclopaedia Metallum, além das informações de lançamento e composição disponíveis nas referências acima.