Na Rua Major Sertório, uma das mais famosas casas noturnas de São Paulo recebeu jogadores, artistas, políticos e empresários durante a época de ouro da noite paulistana
A fachada do La Licorne, uma das mais famosas casas noturnas de São Paulo. A imagem preservada pela imprensa mostra a aparência discreta do estabelecimento, que contrastava com sua enorme fama na noite paulistana.
Houve uma época em que a noite de São Paulo tinha seus próprios personagens, endereços e códigos.
Entre a Praça Roosevelt, a Rua Major Sertório, a Rua Augusta e outras ruas do centro, funcionava uma verdadeira geografia da boemia, dos bares, dos teatros, das boates e das casas de prostituição de luxo.
No meio desse universo estava um nome que se tornou lendário: La Licorne.
A casa de Laura Garcia, a famosa Dona Laura.
A CASA QUE COMEÇOU NA PRAÇA ROOSEVELT
A Praça Roosevelt em uma São Paulo de outras décadas. Foi nessa região que começou a história do La Licorne antes da transferência para a Rua Major Sertório.
O La Licorne foi inaugurado em 1968, na Praça Roosevelt.
Segundo pesquisa baseada em reportagem de O Estado de S. Paulo, a casa tinha 120 mesas e capacidade para aproximadamente 560 pessoas.
O nome também tinha uma história curiosa.
Laura teria conhecido, durante uma viagem à Europa, uma boate chamada Unicórnio, em Roma. Uma acompanhante teria pronunciado o nome como "La Licorne".
O nome ficou.
Quando a Prefeitura modificou a Praça Roosevelt e o prédio foi desapropriado, Laura transferiu a casa para a Rua Major Sertório.
DONA LAURA, A MULHER QUE COMANDAVA A NOITE
Laura Garcia, conhecida como Dona Laura, tornou-se uma das personagens mais poderosas da noite paulistana.
Dona Laura não era apenas proprietária de uma boate.
Ela construiu um verdadeiro império.
Em 1979, a imprensa descrevia Laura Garcia como uma das grandes figuras da chamada Boca do Luxo da Rua Major Sertório, mencionando seu patrimônio e sua rede de negócios. (Hemeroteca Digital)
Antes do La Licorne, ela havia começado com uma casa menor, o L'Amour, na Rua Bento Freitas.
A partir daí, seu nome cresceu.
E o La Licorne se tornou sua maior vitrine.
A RUA MAJOR SERTÓRIO
A Rua Major Sertório fazia parte da geografia da vida noturna do centro de São Paulo, especialmente durante as décadas de 1960, 1970 e 1980.
Quando o La Licorne chegou à Major Sertório, encontrou uma região que já fazia parte do circuito noturno paulistano.
A proximidade com a Praça Roosevelt, a Rua Augusta e outros pontos do centro favorecia a circulação de artistas, boêmios, empresários e clientes das casas noturnas.
Pesquisas sobre a região apontam que a Rua Major Sertório, a Praça Roosevelt e a Rua Augusta estavam integradas à geografia da vida noturna e musical de São Paulo.
UMA FACHADA QUE NÃO PARECIA UM BORDEL
A fachada do La Licorne não tinha a aparência estereotipada de um bordel. Essa característica ajudava a preservar a imagem sofisticada da casa.
Essa talvez seja uma das características mais interessantes do La Licorne.
Ao contrário do imaginário moderno sobre casas de prostituição, o estabelecimento tinha uma aparência discreta e sofisticada.
Uma reportagem do UOL destaca justamente esse aspecto: a fachada não denunciava abertamente sua função, permitindo que carros de políticos, diplomatas e jogadores de futebol parassem diante da casa sem o constrangimento associado a um bordel convencional.
Por isso, o La Licorne funcionava também como uma casa de espetáculos.
ARTISTAS E ESPETÁCULOS
A noite das grandes casas paulistanas também estava ligada à música e aos espetáculos. O La Licorne ficou associado a apresentações artísticas e ao circuito cultural da época.
O La Licorne não vivia somente da prostituição.
Havia apresentações e atrações artísticas.
Pesquisas sobre a Praça Roosevelt lembram os shows de travestis Le Girls e apresentações de Roberto Carlos no período inicial da casa.
Reportagem do UOL também menciona artistas como Ney Matogrosso e Cauby Peixoto entre os grandes nomes associados aos espetáculos dessas casas noturnas.
Era uma mistura muito particular:
música + boemia + luxo + prostituição + celebridades.
OS JOGADORES DE FUTEBOL
Jogadores de futebol estavam entre os frequentadores mais conhecidos da noite paulistana das décadas de 1970 e 1980.
O futebol tinha uma ligação forte com a noite.
Jogadores de grandes clubes paulistas frequentavam as casas noturnas do centro.
O La Licorne aparece em relatos de jogadores daquele período, inclusive em histórias envolvendo César Maluco e Serginho Chulapa.
A relação era tão conhecida que as grandes casas noturnas acabaram entrando no imaginário do futebol brasileiro.
AS MULHERES DE DONA LAURA
Mulheres da noite paulistana durante o período em que as grandes casas de prostituição de luxo dominavam parte do centro de São Paulo. A imagem é apenas representativa e não identifica trabalhadoras do La Licorne.
A fama do La Licorne estava diretamente relacionada às mulheres que trabalhavam na casa.
Dona Laura teria estabelecido regras rígidas sobre aparência e comportamento.
Roupas elegantes, maquiagem, cabelos e apresentação pessoal faziam parte da imagem da casa.
Era uma espécie de transformação da prostituição em um produto de luxo.
E essa imagem também escondia uma realidade mais complicada.
Reportagens posteriores relatam que o chamado "banho de loja", com roupas e outros itens fornecidos às mulheres, podia gerar dívidas e dependência econômica.
Por trás do luxo existia, portanto, uma estrutura comercial bastante rígida.
O LUXO DA MAJOR SERTÓRIO
O ambiente das grandes casas noturnas de luxo paulistanas procurava transmitir sofisticação e exclusividade.
O objetivo era criar uma experiência diferente.
O cliente entrava em um ambiente sofisticado, encontrava mulheres cuidadosamente apresentadas e podia assistir a espetáculos.
A casa era frequentada por pessoas de diferentes setores da elite.
Uma reportagem de 1979 descreveu o La Licorne como parte da chamada "boca do luxo" da Rua Major Sertório e destacou a importância de Dona Laura na transformação do negócio em uma atividade altamente profissionalizada.
LA LICORNE NO CINEMA
Cartaz de “As Meninas da Madame Laura”, produção de 1981 relacionada ao universo da famosa cafetina paulistana.
A fama de Dona Laura ultrapassou a noite.
Em 1981, chegou aos cinemas o filme As Meninas da Madame Laura, dirigido por Ciro Carpentieri.
O próprio título já demonstrava o quanto a personagem havia se tornado conhecida no imaginário popular.
O FIM DE UMA ERA
O centro de São Paulo começou a mudar profundamente a partir dos anos 1980, transformando também a antiga geografia da vida noturna.
O mundo que havia criado o La Licorne começou a desaparecer.
Mudaram os costumes.
Mudou a economia.
Mudou a cidade.
Mudou o próprio mercado da prostituição.
Em 1979, a imprensa já registrava transformações no setor, com aumento do número de mulheres disponíveis, redução da clientela masculina e deslocamento de parte da prostituição das casas para as ruas e grandes avenidas.
O La Licorne acabaria fechando suas portas.
Mas seu nome permaneceria.
O QUE RESTOU DO LA LICORNE?
A Rua Major Sertório atualmente. O cenário mudou completamente, mas o endereço permanece ligado à memória da antiga Boca do Luxo.
Hoje, quem caminha pela região encontra uma São Paulo muito diferente daquela dos anos 1970.
Pouco resta fisicamente da antiga casa.
Mas fotografias como aquela da fachada ajudam a reconstruir uma época que desapareceu.
O La Licorne foi muito mais que uma boate.
Foi um símbolo de uma São Paulo noturna em que jogadores, artistas, políticos, empresários e mulheres da noite circulavam pelo mesmo território.
Foi também um dos endereços que ajudaram a construir a lenda da Boca do Luxo.
A FOTO QUE CONGELOU A LENDA
A fotografia é especialmente valiosa porque mostra a casa como ela era: discreta por fora, famosa por dentro.
É justamente essa imagem que ajuda a entender por que o La Licorne se tornou tão importante.
Não havia um grande letreiro anunciando aquilo que acontecia ali.
Havia apenas uma fachada elegante.
E atrás dela estava uma das histórias mais famosas da noite de São Paulo.
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