sábado, 5 de setembro de 2026

AS DRAG QUEENS QUE INCENDIARAM A NOITE DE SÃO PAULO NOS ANOS 80 E 90

Miss Biá, Kaká Di Polly, Márcia Pantera, Thália Bombinha, Victor Piercing, Silvetty Montilla e outras estrelas de uma época em que o palco era território de resistência

Antes dos reality shows de drag queens, antes do Instagram, do TikTok e dos milhões de seguidores, existia uma São Paulo noturna onde uma artista precisava conquistar o público olho no olho.

Era uma época de boates lotadas, concursos de beleza, shows de dublagem, humor, performances extravagantes, figurinos produzidos quase artesanalmente e personagens que podiam se transformar em verdadeiras celebridades dentro da noite paulistana.

Algumas dessas artistas chegaram à televisão e ao teatro. Outras permaneceram conhecidas principalmente entre aqueles que frequentavam as casas noturnas.

Mas todas ajudaram a construir uma história.

E entre elas estavam nomes como Miss Biá, Kaká Di Polly, Márcia Pantera, Silvetty Montilla, Nany People, Salete Campari, Dimmy Kieer, Thália Bombinha e Victor Piercing.

Esta é uma viagem pela noite em que as drags não precisavam de internet para virar lenda.


A SÃO PAULO QUE ACORDAVA QUANDO A CIDADE DORMIA

Durante o dia, São Paulo era uma metrópole acelerada.

À noite, porém, surgia uma outra cidade.

Regiões como o centro, Consolação, Bela Vista e outros circuitos da noite LGBT concentravam bares, boates, casas de espetáculo e espaços alternativos.

A boate podia ser muito mais do que um lugar para dançar.

Era palco.

Era ponto de encontro.

Era passarela.

Era espaço de sociabilidade.

E, para muita gente, era um dos poucos lugares onde era possível experimentar uma forma de liberdade que não existia com a mesma intensidade fora dali.

A pesquisa sobre a história da noite LGBT paulistana mostra justamente essa importância das casas noturnas para a formação de uma cultura própria, especialmente durante os anos 1980 e 1990.

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Legenda: A noite paulistana das décadas de 1980 e 1990 foi um dos principais espaços de encontro e expressão da comunidade LGBT.


MISS BIÁ — A GRANDE DAMA DO TRANSFORMISMO

Se fosse necessário escolher um nome para representar a longa história do transformismo e da arte drag em São Paulo, Miss Biá certamente estaria entre os primeiros.

Eduardo Albarella, conhecido artisticamente como Miss Biá, começou a se apresentar ainda no final dos anos 1950 e construiu uma carreira de aproximadamente seis décadas.

Ou seja: quando muitas das artistas que posteriormente dominariam a noite paulistana ainda nem haviam começado suas trajetórias, Miss Biá já estava nos palcos.

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Ela também trabalhou como estilista e maquiador e ficou conhecida por sua relação com Hebe Camargo, chegando a atuar como estilista da apresentadora.

Durante a ditadura militar, Miss Biá continuou fazendo apresentações, enfrentando também a censura que atingia os espetáculos.

Segundo relato publicado pela VEJA São Paulo, houve períodos em que chegava a fazer até cinco apresentações em uma mesma noite.

A importância de Miss Biá

Miss Biá representa uma geração anterior ao termo "drag queen" se popularizar no Brasil.

Sua trajetória ajuda a compreender uma transformação de linguagem.

Antes, falava-se muito em transformismo.

Depois, a expressão drag queen passou a ganhar força.

A própria história de Miss Biá atravessa essa mudança.

Ela não foi apenas uma artista de boate.

Foi uma espécie de ponte entre diferentes gerações da noite.

E sua influência aparece inclusive nas histórias de artistas que vieram depois.


KAKÁ DI POLLY — A DONA DA NOITE



Poucas personagens conseguiram criar uma imagem tão forte quanto Kaká Di Polly.

Considerada uma das pioneiras da noite paulistana, ela circulou durante décadas pelos principais espaços LGBT da cidade.

Sua presença na boate Medieval, uma das casas históricas da noite paulistana, foi tão marcante que recebeu o apelido de "dona da cidade".

Kaká não era apenas uma drag que subia ao palco.

Era uma personalidade.

Uma presença.

Uma figura que fazia parte da própria paisagem noturna de São Paulo.

E sua história ganhou uma dimensão ainda maior por causa de sua participação na primeira Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, em 1997.

Naquele dia, diante da tentativa de interrupção do cortejo, Kaká fingiu um desmaio na Avenida Paulista para distrair a polícia e permitir que a manifestação continuasse.

Cerca de 2 mil pessoas participaram daquela primeira edição.

A personagem que virou memória

Kaká também ficou conhecida por seu humor e por frases irreverentes.

Uma história que ficou famosa aconteceu durante uma noite chuvosa nos anos 1990.

Para não estragar o figurino, ela teria colocado um casaco de pele no chão molhado para poder passar sobre ele.

A frase atribuída à própria Kaká resume perfeitamente a filosofia daquela geração:

"não perder o carão."

Kaká morreu em 2023, deixando para trás uma história que foi posteriormente recuperada no livro Rainhas da Noite, de Chico Felitti.


MÁRCIA PANTERA — A MULHER QUE FEZ O CABELO VOAR

Poucas artistas transformaram um movimento corporal em assinatura artística como Márcia Pantera.

Nascido em São Paulo, Carlos Márcio José da Silva criou a personagem que se tornaria uma das figuras mais importantes da cena clubber brasileira.

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Antes de se tornar drag, Márcia chegou a jogar vôlei.

Seu contato com o universo das performances aconteceu na boate Nostro Mondo.

Foi ali que viu um show de transformismo e ficou fascinado pela possibilidade de estar no palco.

Sua primeira montagem para um concurso foi praticamente improvisada.

Sem figurino profissional, utilizou roupas da mãe e até adaptou patins sem rodas como calçado.

Quem a ajudou naquela ocasião foi a transformista Cheyenne Crec Crec.

Márcia venceu o concurso e acabou convidada para integrar o elenco da casa.


O NASCIMENTO DO BATE-CABELO

Por volta de 1992, Márcia começou a desenvolver aquilo que se tornaria sua maior marca: o bate-cabelo.

A técnica transformava a peruca em parte do corpo da performance.

O cabelo não era mais simplesmente um acessório.

Era movimento.

Era dança.

Era impacto.

Era espetáculo.

A artista começou fazendo apresentações inspiradas em grandes divas da música, mas posteriormente passou a incorporar elementos da cultura clubber e da música eletrônica.

Seu trabalho também atravessou a moda.

Márcia manteve uma longa parceria com o estilista Alexandre Herchcovitch, que a considera uma de suas musas.

Ela chegou a participar de eventos de moda e desfiles, levando uma personagem da noite underground para um espaço tradicionalmente associado à alta moda.


SILVETTY MONTILLA — DO PALCO DA BOATE PARA O BRASIL

A trajetória de Silvetty Montilla mostra como uma drag queen podia transformar a experiência da noite em uma carreira artística muito maior.

Silvetty começou a se apresentar em 1987.

No início, conciliava a vida artística com um trabalho como oficial de justiça.

Aos poucos, porém, os palcos começaram a falar mais alto.

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Em entrevista à revista Quem, Silvetty contou que sua primeira montagem aconteceu no Carnaval e que encontrou inspiração em artistas como Paulette, Miss Biá e Colibri.

Durante a carreira, participou de concursos de miss e recebeu títulos como Miss Primavera e Miss Brasil na categoria drag.

Sua força estava também no improviso e no humor.

Silvetty transformava a interação com o público em parte do espetáculo.

Essa característica ajudou a levá-la muito além das boates.

Ela passou pelo teatro, televisão, eventos e programas humorísticos.

Uma pesquisa acadêmica recente inclusive utiliza sua trajetória como estudo de caso para discutir a relação entre cultura drag, memória urbana e resistência LGBTQIA+.


NANY PEOPLE — QUANDO A NOITE VIROU ESCOLA

Antes de se tornar conhecida nacionalmente como atriz e humorista, Nany People construiu sua trajetória em São Paulo.

Ela chegou à cidade para estudar teatro e precisou trabalhar em diferentes funções para se manter.

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A noite paulistana tornou-se um dos espaços fundamentais de sua formação artística.

Seu trabalho envolveu apresentação, humor e interação com o público.

O próprio site oficial de Nany destaca sua formação no Teatro Escola Macunaíma e sua trajetória posterior no teatro, televisão, rádio e cinema.

Nany representa uma característica muito importante daquela geração: a boate podia ser uma verdadeira escola de palco.

Ali se aprendia a improvisar.

A segurar uma plateia.

A lidar com vaias.

A responder provocações.

A criar personagens.

E, acima de tudo, a sobreviver artisticamente.


THÁLIA BOMBINHA — O HUMOR COMO ARMA

E chegamos a uma das personagens mais divertidas dessa história.

Thália Bombinha construiu uma carreira completamente diferente daquela das drags associadas exclusivamente ao glamour.

Seu território era o humor.

O improviso.

A caricatura.

A provocação.

E a capacidade de transformar qualquer situação em piada.

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Thália começou sua trajetória na noite paulistana na Nostro Mondo, onde inicialmente trabalhava como segurança.

Segundo relatos publicados sobre sua carreira, foi durante festas de funcionários que começou a experimentar a montagem.

Uma reportagem de 2010 conta que ela começou a carreira por volta de 1997 e que sua passagem pela Nostro Mondo foi fundamental para sua entrada no universo das performances.

Uma drag diferente

Enquanto muitas artistas apostavam em dublagens e grandes números coreografados, Thália desenvolveu uma característica própria: o improviso.

Ela podia subir ao palco sem saber exatamente para onde a apresentação iria.

Observava a plateia.

Fazia comentários.

Criava situações.

Brincava consigo mesma.

E transformava o público em participante do espetáculo.

Foi essa personalidade que a levou para além das boates.

Thália apareceu em programas como Pânico na TV, Ratinho, Hebe, Programa do Jô e Show do Tom.

Também participou do teatro.

Em 2006, venceu o Show do Gongo, na capital paulista, com uma paródia chamada Viado veste pra dá, inspirada em O Diabo Veste Prada.

NOSTRO MONDO

A Nostro Mondo aparece repetidamente na história de Thália.

Isso não é coincidência.

A casa foi um dos espaços importantes da noite paulistana e serviu de ponto de encontro para diferentes gerações de artistas.

A própria história de Thália mostra como a boate podia revelar novos talentos.

Primeiro funcionária.

Depois artista.

Depois nome conhecido.

Essa passagem de bastidores para o palco era uma das características mais fascinantes da noite daquela época.


VICTOR PIERCING — A DRAG QUE NÃO QUERIA SER UMA DIVA

Se Thália representava o humor, Victor Piercing representava a ruptura estética.

Sua história é especialmente interessante porque Victor não seguiu exatamente o modelo tradicional da drag queen que dominava parte da cena.

Ele criou uma estética própria misturando:

androginia + rock + estética gótica + terror + body modification.

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Em entrevista à revista Híbrida, Victor contou que começou muito jovem, aos 13 anos, apresentando-se com Agatha Lemanski em Presidente Altino, em Osasco.

A primeira experiência ocorreu em um bar/boate chamado Bambus Boli.

ROCK EM VEZ DE DIVA

Victor conta que gostava de artistas como Cyndi Lauper, The Cure e Nina Hagen.

Em vez de reproduzir apenas a estética das grandes divas da música, decidiu experimentar uma apresentação mais masculina, andrógina e influenciada pelo rock.

Essa escolha o diferenciava.

Em 1993, participou do concurso Nasce uma Estrela, realizado na Nostro Mondo e apresentado por Miss Biá.

Victor ficou em terceiro lugar.

O mais interessante é que ele próprio relata que recebeu críticas justamente por não se encaixar no padrão esperado.

Era uma época em que as categorias e identidades dentro da própria noite eram muito marcadas.

Victor escolheu ocupar um espaço diferente.


O LADO MONSTER DE VICTOR

Posteriormente, a performance de Victor incorporou elementos de terror e monstros.

Ele explica que precisava alternar os estilos.

Se fizesse apenas performances de terror, corria o risco de ser contratado somente para festas de Halloween.

Assim, criou uma combinação de:

androginia + rock + terror + personagem.

Victor chegou a se apresentar em casas como Sky, Proibidus, Homo Sapiens, Night Boys, Mad Queen, Massivo e Sogo, além de ter sido residente da Diesel Base.

Na Salvation, chegou a criar um personagem com características de leopardo e leão.


OS 33 PIERCINGS

O nome Victor Piercing não era apenas uma escolha estética.

Em determinado momento, Victor chegou a ter 33 piercings.

Em 1998, enquanto trabalhava na Galeria Ouro Fino, sua aparência já dialogava diretamente com a estética alternativa que começava a ganhar força.

A Galeria Ouro Fino, naquele período, era um importante ponto da moda alternativa paulistana.

Victor estava inserido justamente nesse universo.

Cabelo colorido.

Piercings.

Visual andrógino.

Moda alternativa.

Rock.

Fetiche.

Performance.

Tudo isso começava a se misturar.


O AUGE

Segundo o próprio Victor, seu auge aconteceu por volta do ano 2000.

Ele passou pela televisão, incluindo participações com Gugu e Luciana Gimenez.

Também viajou pelo Brasil e chegou a trabalhar no exterior, incluindo Itália e Venezuela.

A experiência internacional também mostrou diferenças importantes entre os formatos de apresentação.

Victor relata que, em determinados lugares, o público esperava performances muito mais longas do que aquelas comuns nas casas brasileiras.

Era necessário sustentar um personagem durante vários minutos.


DE PERFORMER A PROFESSOR

A história de Victor não terminou quando a grande fase das boates começou a mudar.

Ele passou a trabalhar também como professor de maquiagem artística e criação de personagens.

A experiência acumulada nos palcos transformou-se em conhecimento transmitido para novas gerações.

E existe algo simbólico nisso.

O artista que aprendeu observando os outros acabou se tornando professor.


SALETE CAMPARI — A HOSTESS QUE VIROU ÍCONE

Outra personagem fundamental é Salete Campari.

Sua trajetória reúne noite, humor, televisão e militância.

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Salete começou a frequentar e trabalhar na noite paulistana e tornou-se conhecida também por interpretar personagens inspirados em figuras como Marilyn Monroe, Elis Regina e Carmen Miranda.

Seu trabalho como hostess foi especialmente importante.

Ela recebia o público, interagia com os frequentadores e ajudava a criar a atmosfera da festa.

Uma pesquisa do Memorial da Resistência registra seu depoimento sobre a vida noturna na Nostro Mondo, Homo Sapiens, Corinto e Gent's, além de suas experiências com Miss Biá e com ações de prevenção ao HIV/AIDS.

Salete também esteve envolvida na articulação da primeira Parada do Orgulho LGBT de São Paulo.

Sua trajetória posteriormente ultrapassou os palcos e chegou à política.


DIMMY KIEER — A DRAG DA MÚSICA

Outro nome que não pode ficar de fora é Dimmy Kieer, personagem de Dicesar.

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Dicesar começou a se apresentar ainda nos anos 1980, participando em 1989 do concurso Côncavo e Convexo, da extinta boate Corintho.

Na década seguinte, desenvolveu trabalhos relacionados à música e à maquiagem.

Também passou a trabalhar com referências da música pop e foi pioneiro na chamada Drag Music brasileira.

O nome Dimmy Kieer foi inspirado em Lady Miss Kier, vocalista do Deee-Lite.

Décadas depois, Dicesar chegaria ao Big Brother Brasil 10, levando para a televisão uma trajetória que havia começado muito antes, nos palcos da noite.


NATASHA RASHA E A ARTE DA DUBLAGEM


Outra artista associada àquela geração é Natasha Rasha.

Seu nome aparece ligado à tradição das grandes performers de dublagem e também aos shows de humor.

Relatos sobre a cena paulistana destacam sua experiência de mais de duas décadas como performer e seu trabalho na Blue Space.

Thália Bombinha também manteve parceria artística com Natasha e outras performers.


BLUE SPACE — A CASA QUE VIROU INSTITUIÇÃO

Embora tenha surgido em meados dos anos 1990, a Blue Space merece um capítulo próprio.

A casa tornou-se uma das grandes referências dos espetáculos drag em São Paulo.

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A programação combinava:

  • grandes performances;

  • bailarinos;

  • cenários;

  • humor;

  • dublagem;

  • música eletrônica;

  • concursos;

  • eventos especiais.

A casa ficou conhecida por manter uma estrutura de espetáculo que lembrava uma pequena Broadway.

Por ali passaram artistas como Silvetty Montilla, Márcia Pantera, Thália Bombinha, Natasha Rasha, Salete Campari e muitas outras.


TUNNEL — A NOITE QUE NÃO PARAVA

Outra casa importante foi a Tunnel, fundada em 1992.

A programação recebeu nomes importantes da cena drag, incluindo Silvetty Montilla e Thália Bombinha.

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A casa ajudou a consolidar a região da Bela Vista como parte importante do circuito noturno.

Na década seguinte, Thália aparecia frequentemente nas programações de humor da casa.

Registros da imprensa mostram como os shows de Thália se tornaram uma das atrações das matinês e noites da Tunnel.


O QUE ERA SER DRAG NAQUELA ÉPOCA?

Hoje, montar-se pode significar ter acesso a uma enorme indústria.

Perucas especializadas.

Maquiagem profissional.

Próteses.

Figurinos sob medida.

Tutoriais.

Redes sociais.

Patrocinadores.

Naquela época, muitas artistas precisavam improvisar.

A roupa podia ser emprestada.

A peruca podia passar de uma artista para outra.

O figurino podia ser produzido pela própria drag.

A maquiagem era aprendida observando outras pessoas.

E uma apresentação podia começar com praticamente nada.

Victor Piercing, por exemplo, afirma ter aprendido a se maquiar sozinho, observando outras pessoas.

Márcia Pantera também começou de maneira improvisada, usando peças da própria família antes de conquistar grandes parceiros profissionais.


AIDS, PRECONCEITO E RESISTÊNCIA

Não dá para contar a história dessas artistas apenas pelo glamour.

A década de 1980 foi marcada pelo avanço da epidemia de HIV/AIDS e pelo enorme estigma associado à doença.

As comunidades LGBT enfrentavam preconceito e violência.

A noite tornou-se, simultaneamente, lugar de diversão e de sobrevivência social.

Os relatos preservados pelo Memorial da Resistência mostram como artistas como Salete Campari viveram diretamente os impactos da epidemia e participaram de iniciativas de conscientização e distribuição de preservativos.

Por isso, olhar para aquelas drags apenas como "personagens engraçadas de boate" seria diminuir sua importância.

Elas estavam vivendo uma transformação social.

E estavam fazendo isso diante de um público que também carregava suas próprias histórias.


QUANDO A DRAG SAIU DA BOATE

Durante os anos 1990, algo começou a mudar.

A cultura drag passou a aparecer cada vez mais na televisão, na publicidade, na música, no teatro e na moda.

Programas de auditório descobriram que aquelas personagens tinham algo que a televisão adorava:

personalidade.

A televisão queria humor.

As drags tinham humor.

Queria extravagância.

Elas tinham extravagância.

Queria personagens.

Elas eram personagens.

Mas havia algo ainda mais importante:

elas já sabiam trabalhar com público.


A TELEVISÃO DESCOBRE AS RAINHAS DA NOITE

Thália Bombinha chegou a programas como Pânico na TV, Ratinho, Hebe e Programa do Jô.

Silvetty Montilla passou pela televisão e pelo teatro.

Nany People construiu uma carreira nacional.

Dimmy Kieer chegaria posteriormente ao Big Brother Brasil.

Salete Campari tornou-se presença frequente em programas de televisão e eventos.

E aquilo que antes parecia restrito às boates começou a fazer parte da cultura popular.


UMA GERAÇÃO QUE CRIOU O CAMINHO

Quando uma drag contemporânea sobe hoje a um palco perfeitamente iluminado, com produção de milhares de reais, câmeras e milhares de pessoas acompanhando pela internet, existe uma história anterior por trás disso.

Uma história construída por artistas que muitas vezes não tinham nada disso.

Não havia Instagram para divulgar o show.

Não havia TikTok para viralizar um bate-cabelo.

Não havia YouTube para registrar uma apresentação.

Não havia streaming.

Havia apenas:

o palco.

E o público.


QUANTAS HISTÓRIAS SE PERDERAM?

Talvez essa seja a parte mais triste dessa história.

Muitos flyers desapareceram.

Fotografias ficaram guardadas em caixas.

Vídeos foram gravados em VHS e nunca digitalizados.

Revistas desapareceram das bancas.

E artistas que eram conhecidíssimas dentro de uma determinada boate acabaram praticamente esquecidas fora daquele circuito.

Por isso, acervos como o Acervo Bajubá e projetos de memória LGBTQIA+ são tão importantes.

Uma exposição digital do Acervo Bajubá, por exemplo, reúne registros relacionados à noite, entrevistas e personagens como Thália Bombinha, Marcinha do Corintho, Ginger Moon, Victoria Principal e outras figuras da cena.


AS RAINHAS DE UMA SÃO PAULO QUE NÃO EXISTE MAIS

Miss Biá.

Kaká Di Polly.

Márcia Pantera.

Silvetty Montilla.

Nany People.

Salete Campari.

Dimmy Kieer.

Thália Bombinha.

Victor Piercing.

Natasha Rasha.

E tantas outras.

Cada uma criou uma linguagem.

Algumas apostaram no glamour.

Outras no humor.

Outras na música.

Outras no terror.

Outras no improviso.

Outras na militância.

E algumas fizeram tudo isso ao mesmo tempo.


O MAIS IMPORTANTE NÃO ERA A ROUPA

Talvez seja tentador olhar para fotografias antigas e enxergar apenas os figurinos.

As perucas.

Os saltos.

A maquiagem.

As luzes.

Mas a verdadeira história está por trás.

Essas artistas estavam ocupando espaços em uma época em que a liberdade para ser diferente era muito mais limitada.

Elas criaram personagens.

Criaram comunidades.

Criaram empregos.

Criaram linguagem.

Criaram memória.

E, muitas vezes, simplesmente continuaram existindo quando muita gente queria que elas desaparecessem.


QUANDO AS LUZES SE APAGAVAM...

Imagine uma boate paulistana em uma noite qualquer dos anos 1990.

As luzes diminuem.

A música começa.

A plateia grita.

Uma figura aparece no palco.

Talvez uma diva.

Talvez uma caricatura.

Talvez um monstro.

Talvez uma personagem completamente impossível de explicar.

Ela começa a dublar.

O público responde.

E durante alguns minutos, aquela artista é dona absoluta daquele lugar.

Não existe internet.

Não existe algoritmo.

Não existe número de seguidores.

Existe apenas a presença.

E é justamente por isso que tantas dessas artistas se tornaram inesquecíveis.

Porque quem viu ao vivo, nunca esqueceu.


EPÍLOGO — AS RAINHAS NÃO DESAPARECERAM

A São Paulo dos anos 1980 e 1990 mudou.

As boates mudaram.

A tecnologia mudou.

A própria linguagem drag mudou.

Mas a herança permaneceu.

O bate-cabelo de Márcia Pantera continua sendo reproduzido.

O humor de Silvetty e Thália continua inspirando performers.

A irreverência de Kaká permanece na memória da militância.

A trajetória de Miss Biá continua sendo referência histórica.

A estética de Victor Piercing antecipou uma mistura que hoje parece muito mais comum: drag, androginia, rock, terror, moda e body modification.

E artistas como Nany People e Salete Campari demonstraram que a experiência construída na noite podia abrir portas para outras áreas.

A história das drag queens paulistanas não é apenas uma história de boates.

É uma história de arte, sobrevivência, amizade, criatividade, resistência e memória.

E talvez a maior homenagem que possa ser feita a essa geração seja simplesmente lembrar seus nomes.

Porque antes das grandes estrelas da internet...

elas já estavam lá.

No palco.

Na noite.

Sob as luzes.

Fazendo São Paulo ferver.

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