JOGO DO BICHO
A fascinante história do jogo que nasceu em um zoológico e se espalhou pelo Brasil
Uma ideia criada para salvar um zoológico no Rio de Janeiro acabou dando origem a um dos fenômenos mais curiosos da cultura popular brasileira.
Há mais de 130 anos, animais, números, sorte, dinheiro, superstição e clandestinidade começaram a se misturar nas ruas do Rio de Janeiro.
O resultado foi o nascimento do Jogo do Bicho.
Hoje, a expressão faz parte do vocabulário brasileiro. Mas poucas pessoas conhecem a história por trás dela.
Quem criou?
Por que foram escolhidos animais?
Como um simples sorteio de zoológico virou uma enorme rede de apostas?
E como uma atividade proibida conseguiu sobreviver por mais de um século?
Prepare-se para conhecer uma das histórias mais curiosas do Brasil.
1. ANTES DO JOGO: O ZOOLÓGICO DE VILA ISABEL
A história começa no Rio de Janeiro do século XIX.
Em 1888, João Batista Viana Drummond, posteriormente conhecido como Barão de Drummond, inaugurou um jardim zoológico em Vila Isabel.
O local possuía animais, jardins, lagos e áreas de passeio.
Naquele período, visitar um zoológico era uma experiência completamente diferente daquela que conhecemos atualmente.
Para muitas pessoas, observar animais exóticos era uma verdadeira novidade.
O empreendimento chegou a receber grande quantidade de visitantes.
Mas a situação financeira do zoológico começou a se complicar.
Manter animais, funcionários e toda a estrutura custava caro.
Foi então que o Barão de Drummond teve uma ideia inusitada.
2. QUEM FOI O BARÃO DE DRUMMOND?
João Batista Viana Drummond nasceu em 1825 e tornou-se uma figura importante do Rio de Janeiro.
Empresário e proprietário do zoológico de Vila Isabel, recebeu o título de Barão de Drummond.
Sua preocupação com a sobrevivência financeira do zoológico acabaria produzindo uma consequência inesperada.
Ele precisava encontrar uma maneira de atrair mais visitantes.
Foi assim que surgiu a ideia de associar os ingressos a animais.
Ninguém poderia imaginar que aquela estratégia acabaria se transformando em uma das práticas de aposta mais famosas do Brasil.
3. A IDEIA QUE DEU ORIGEM AO JOGO
Em 1892, o zoológico passou a utilizar uma forma de sorteio envolvendo animais.
A lógica era relativamente simples.
O visitante comprava seu ingresso e recebia uma identificação relacionada a um dos animais.
Ao final do dia, um animal era escolhido.
Se o animal correspondente ao bilhete fosse sorteado, o visitante recebia um prêmio.
A iniciativa ajudava a aumentar o interesse do público pelo zoológico.
O que começou como uma estratégia promocional, porém, rapidamente ganhou vida própria.
As pessoas passaram a se interessar mais pelo resultado do que pelo próprio passeio entre os animais.
E então aconteceu algo que o Barão de Drummond provavelmente não havia planejado:
o jogo começou a sair do zoológico.
4. QUANDO OS BICHOS GANHARAM AS RUAS
A popularidade cresceu rapidamente.
Pessoas começaram a apostar nos animais mesmo sem necessariamente frequentar o zoológico.
O sistema passou a ser reproduzido fora de seus limites originais.
Aos poucos, apareceram intermediários responsáveis por receber apostas e transmitir resultados.
O jogo deixou de ser uma atração ligada a um jardim zoológico.
Transformou-se em uma atividade popular.
E os animais passaram a representar muito mais do que simplesmente criaturas expostas em um parque.
Eles começaram a representar sorte, dinheiro e esperança de ganhar um prêmio.
5. OS 25 ANIMAIS
A estrutura tradicional do jogo é formada por 25 animais.
Cada animal corresponde a um grupo de quatro números.
O conjunto vai do número 01 ao 00, totalizando 100 números.
Entre os animais estão:
01–04 — Avestruz
05–08 — Águia
09–12 — Burro
13–16 — Borboleta
17–20 — Cachorro
21–24 — Cabra
25–28 — Carneiro
29–32 — Camelo
33–36 — Cobra
37–40 — Coelho
41–44 — Cavalo
45–48 — Elefante
49–52 — Galo
53–56 — Gato
57–60 — Jacaré
61–64 — Leão
65–68 — Macaco
69–72 — Porco
73–76 — Pavão
77–80 — Peru
81–84 — Touro
85–88 — Tigre
89–92 — Urso
93–96 — Veado
97–00 — Vaca
A associação entre animais e números tornou-se tão conhecida que acabou entrando definitivamente na cultura popular.
6. SONHOS, SUPERSTIÇÃO E O "BICHO"
Uma das características mais curiosas do jogo foi sua relação com a superstição.
Ao longo do tempo, criou-se a tradição popular de relacionar sonhos e acontecimentos do cotidiano aos animais.
Uma pessoa poderia sonhar com um animal e interpretar aquilo como um possível sinal de sorte.
Outras pessoas acreditavam que determinados acontecimentos poderiam indicar qual animal escolher.
Essa associação transformou o jogo em algo que ultrapassava a simples aposta.
Ele passou a fazer parte do imaginário popular.
O "bicho" estava nos sonhos, nas conversas, nas brincadeiras e nas superstições.
7. QUANDO O JOGO FOI PROIBIDO
O crescimento do jogo chamou a atenção das autoridades.
A prática passou a ser combatida e, ao longo do tempo, diferentes leis estabeleceram punições.
Em 1941, a Lei das Contravenções Penais passou a tratar expressamente do jogo do bicho.
O artigo 58 estabeleceu punições relacionadas à exploração da atividade.
Mesmo assim, a proibição não conseguiu acabar com o jogo.
Ele simplesmente passou a funcionar clandestinamente.
E foi justamente nesse ambiente que sua organização começou a ficar cada vez mais sofisticada.
8. OS "BICHEIROS"
Com a expansão da atividade, surgiram os chamados banqueiros do bicho.
Eles administravam estruturas responsáveis por receber apostas, organizar resultados e distribuir pagamentos.
Alguns chegaram a acumular grandes fortunas.
O fenômeno ganhou uma dimensão que ultrapassava as pequenas apostas individuais.
Em determinadas regiões, o jogo passou a ser controlado por grupos organizados.
Alguns dos personagens ligados ao universo do jogo tornaram-se figuras públicas extremamente conhecidas.
Um dos nomes mais famosos foi Castor de Andrade, personagem profundamente associado à história do jogo do bicho e do carnaval carioca.
9. O JOGO DO BICHO E O CARNAVAL
Talvez nenhuma outra manifestação cultural tenha se relacionado tanto com o universo do jogo do bicho quanto o carnaval carioca.
Ao longo do século XX, pessoas ligadas ao jogo passaram a financiar ou apoiar escolas de samba.
Isso ajudou algumas agremiações a obter recursos para desfiles cada vez mais grandiosos.
O resultado foi uma relação controversa.
De um lado, havia o financiamento do carnaval.
Do outro, a atividade clandestina e a repressão policial.
Essa relação transformou o jogo do bicho em um fenômeno que envolvia cultura, dinheiro, poder e criminalidade.
10. O JOGO NAS PÁGINAS DOS JORNAIS
Durante décadas, o jogo do bicho apareceu frequentemente nas páginas dos jornais.
As notícias tratavam de prisões, apreensões, investigações e personagens ligados às bancas.
Mas o jogo também aparecia de maneira indireta em histórias de cotidiano.
A existência de uma atividade proibida que continuava funcionando abertamente em determinadas regiões tornou-se uma das grandes contradições da vida urbana brasileira.
11. E O QUE ACONTECEU COM O ZOOLÓGICO?
Aqui está uma das maiores ironias dessa história.
O zoológico que deu origem ao jogo não existe mais.
O antigo Jardim Zoológico de Vila Isabel foi fechado em 1940.
O espaço posteriormente passou por transformações e atualmente é conhecido como Parque Recanto do Trovador.
O local continua guardando a memória daquele zoológico onde tudo começou.
Mas os animais que um dia estavam atrás das grades ganharam uma vida completamente diferente.
Eles passaram a existir nos números, nos sonhos e na imaginação dos brasileiros.
12. UM JOGO QUE SOBREVIVEU AO TEMPO
Poucas práticas populares brasileiras conseguiram sobreviver por tanto tempo apesar das proibições.
O jogo atravessou:
Império → República → Era Vargas → Ditadura → redemocratização → século XXI.
Mudaram os costumes.
Mudaram as cidades.
Mudaram as tecnologias.
Mas o sistema baseado nos animais continuou sendo reconhecido.
A forma de comunicação também evoluiu.
O que antes dependia de pequenos bilhetes e anotações passou a conviver com novas formas de comunicação e organização.
13. O BICHO NA ERA DIGITAL
No século XXI, a tecnologia transformou praticamente todas as formas de comunicação.
O universo das apostas também passou por mudanças.
A internet e os telefones celulares facilitaram a circulação de informações e resultados.
Porém, a existência de novas tecnologias não mudou a situação jurídica do jogo do bicho no Brasil.
A prática tradicional continua sendo tratada como contravenção penal.
14. AFINAL, O JOGO DO BICHO É LEGAL?
Não.
Apesar de sua enorme popularidade e de sua presença histórica na cultura brasileira, o jogo do bicho não foi legalizado nacionalmente.
A prática continua enquadrada na Lei das Contravenções Penais.
Isso significa que existe uma diferença importante entre ser culturalmente conhecido e ser legalizado.
O jogo do bicho conseguiu sobreviver por décadas justamente em uma espécie de contradição: é conhecido por praticamente todo o país, mas continua juridicamente proibido.
15. AS CURIOSIDADES MAIS INCRÍVEIS
CURIOSIDADE
- O jogo nasceu como uma forma de atrair público para um zoológico.
- Sua origem está ligada ao Barão de Drummond.
- A estrutura tradicional utiliza 25 animais.
- Cada animal representa quatro números.
- O avestruz é tradicionalmente apontado como o primeiro animal sorteado.
- O jogo passou a ter uma relação histórica muito forte com o carnaval carioca.
- Durante décadas, o jogo apareceu frequentemente nas páginas policiais dos jornais.
- O antigo zoológico de Vila Isabel fechou em 1940.
- O jogo continua sendo conhecido em praticamente todas as regiões do Brasil, mesmo sendo uma contravenção penal.
16. A GRANDE IRONIA DA HISTÓRIA
Talvez a parte mais fascinante dessa história seja justamente sua ironia.
O Barão de Drummond queria atrair pessoas para ver os animais.
Criou uma estratégia envolvendo sorteio.
A estratégia funcionou tão bem que o sorteio se tornou mais famoso do que o próprio zoológico.
O zoológico desapareceu.
Mas o jogo continuou.
Os animais deixaram de estar apenas dentro de jaulas e passaram a viver em outro lugar:
na cultura popular brasileira.
17. MAIS DO QUE UM JOGO
O Jogo do Bicho é, ao mesmo tempo, uma história sobre:
sorte, superstição, cultura popular, economia informal, repressão, carnaval e transformação urbana.
Por isso, estudar sua origem é também observar como o Brasil mudou ao longo de mais de um século.
Uma pequena experiência criada em um zoológico acabou atravessando gerações.
UMA LINHA DO TEMPO
1888 — Inauguração do Jardim Zoológico de Vila Isabel.
1892 — Surge o sistema de sorteio associado aos animais.
Final do século XIX — A prática começa a se espalhar para além do zoológico.
Início do século XX — O jogo ganha popularidade no Rio de Janeiro.
1938 — A legislação passa a tratar expressamente do jogo do bicho.
1940 — O antigo Jardim Zoológico de Vila Isabel é fechado.
1941 — A Lei das Contravenções Penais estabelece punições relacionadas ao jogo.
Décadas seguintes — O jogo se espalha pelo Brasil e passa a ter forte relação com o carnaval carioca.
Século XXI — A tradição permanece presente na cultura popular brasileira.
10 FORMAS CURIOSAS DE TIRAR O “PALPITE” NO JOGO DO BICHO
Quando sonhos, coincidências e acontecimentos do cotidiano podiam virar sinais!
Uma das características mais curiosas da cultura do jogo do bicho é a enorme quantidade de superstições e maneiras populares de escolher um palpite. Antes de calculadoras, aplicativos e resultados instantâneos, muita gente recorria à imaginação, aos sonhos e às coincidências do dia a dia.
Importante: essas práticas pertencem ao folclore e às crenças populares. Não existe evidência de que elas possam prever resultados.
1. O SONHO
Talvez a forma mais famosa de escolher um bicho fosse através dos sonhos.
Sonhar com um animal podia ser interpretado como um sinal. A pessoa acordava, lembrava do sonho e procurava relacioná-lo a um dos animais do jogo.
- Sonhou com um tigre?
- Apareceu um elefante?
- Uma cobra?
Para o imaginário popular, o sonho podia estar trazendo uma mensagem.
2. O FÓSFORO E O CAFÉ
Essa é uma das histórias mais curiosas.
Segundo relatos de tradições populares ligadas ao jogo do bicho, algumas pessoas recorriam ao fósforo e ao café, procurando interpretar formas produzidas pela fuligem, pela chama ou pelos resíduos.
Se alguém enxergasse uma forma que lembrasse determinado animal, poderia transformá-la em palpite.
Era uma forma de adivinhação, não um método oficial do jogo.
3. UM ANIMAL QUE APARECEU DE REPENTE
Imagine sair de casa e, inesperadamente, encontrar um animal.
Para quem acreditava em sinais, aquilo poderia ser significativo.
Um cachorro atravessando a rua?
Um gato aparecendo na porta?
Uma cobra encontrada durante um passeio?
O acontecimento podia ser interpretado como um “aviso”.
4. ACORDAR COM UMA IMAGEM NA CABEÇA
Nem sempre era necessário lembrar de um sonho inteiro.
Algumas pessoas acreditavam que acordar com a imagem de determinado animal na cabeça também poderia representar um presságio.
Era como se o subconsciente tivesse escolhido o bicho.
5. PLACAS, PORTAS E NÚMEROS
Números encontrados pelo caminho também podiam chamar atenção.
Uma placa de automóvel.
O número de uma casa.
O telefone de alguém.
A hora marcada no relógio.
Para o apostador supersticioso, uma coincidência numérica podia ganhar significado especial.
6. UM ENTERRO OU ACONTECIMENTO INESPERADO
A cultura popular também associava determinados acontecimentos incomuns a palpites.
Um funeral, um acidente, uma notícia inesperada ou um encontro extraordinário podiam ser interpretados como sinais.
Essas associações faziam parte de um universo de simpatias e presságios, muito presente na cultura popular brasileira.
7. NASCIMENTO E ANIVERSÁRIO
Datas importantes também podiam inspirar palpites.
O dia do nascimento de uma criança.
A idade de alguém.
Um aniversário.
Uma data de casamento.
O número de anos de uma pessoa.
Tudo podia ser transformado em números e associado às apostas.
8. UMA NOTÍCIA NO JORNAL
Imagine abrir o jornal pela manhã e encontrar uma notícia sobre um animal.
Um leão que escapou.
Um cavalo vencedor.
Uma cobra encontrada em uma casa.
Para algumas pessoas, aquela notícia podia ser o palpite do dia.
O animal que aparecia inesperadamente nas manchetes ganhava uma atenção especial.
9. COINCIDÊNCIAS DO DIA
Uma das características mais interessantes desse universo era a capacidade de transformar acontecimentos banais em sinais.
Ver determinado número repetidamente.
Encontrar uma pessoa que não via há anos.
Ouvir uma palavra relacionada a um animal.
Encontrar uma figura parecida com um bicho em uma mancha.
Para o supersticioso, coincidência podia ser destino.
10. “A INTUIÇÃO”
E havia ainda quem simplesmente confiasse na própria intuição.
Sem sonho.
Sem número.
Sem animal.
Sem explicação.
A pessoa simplesmente dizia:
“Hoje é aquele bicho.”
E pronto.
Se desse certo, a história era lembrada durante anos.
Se desse errado, o palpite era esquecido.
QUANDO O PALPITE VIRAVA HISTÓRIA
É justamente aí que o jogo do bicho ganhou uma dimensão quase folclórica.
Ao longo das décadas, surgiram inúmeras histórias de pessoas que afirmavam ter “sentido” qual seria o bicho vencedor.
Algumas contavam que haviam sonhado.
Outras lembravam de uma coincidência.
Outras juravam ter recebido um sinal.
E quando o resultado coincidia com o palpite...
a história se transformava em lenda.
MAS POR QUE ISSO FUNCIONAVA TANTO NO IMAGINÁRIO POPULAR?
Porque o ser humano naturalmente procura padrões e significados em acontecimentos aleatórios.
Quando uma coincidência dá certo, ela é muito mais fácil de lembrar.
Quando não dá certo, normalmente é esquecida.
Assim nascem muitas das histórias de “palpites milagrosos”.
E talvez essa seja uma das razões pelas quais o jogo do bicho conseguiu ultrapassar o universo das apostas e se transformar em parte do folclore urbano brasileiro.
VOCÊ ACREDITARIA?
Um fósforo, uma xícara de café, um sonho ou um animal encontrado na rua poderiam ser suficientes para alguém acreditar que havia descoberto o “bicho do dia”.
Não havia ciência nisso. Havia superstição, imaginação e a velha esperança de que o acaso pudesse mandar algum sinal.
OS GRANDES CONTRAVENTORES
Quem foram os homens que construíram os impérios do jogo do bicho no Rio de Janeiro?
Durante boa parte do século XX, o jogo do bicho deixou de ser apenas uma pequena aposta feita nas ruas.
No Rio de Janeiro, ele se transformou em uma estrutura organizada, dividida por territórios e comandada por grandes banqueiros.
Alguns desses homens se tornaram extremamente ricos e poderosos. Outros ficaram conhecidos pela relação com escolas de samba, clubes de futebol e comunidades inteiras.
Por trás do carnaval luxuoso, das grandes festas e dos enormes desfiles, existia uma estrutura clandestina que movimentava muito dinheiro.
Na década de 1970, os principais banqueiros começaram a organizar uma espécie de cúpula do jogo do bicho, estabelecendo regras e divisões territoriais entre eles. (Wikipédia)
Entre os nomes mais conhecidos estavam Castor de Andrade, Miro Garcia, Anísio Abraão David, Capitão Guimarães, Luizinho Drummond, José Caruzzo Escafura, o Piruinha, Antônio Petrus Kalil, o Turcão, Emil Pinheiro e Carlinhos Maracanã, entre outros. (ge)
1. CASTOR DE ANDRADE
O mais famoso dos bicheiros
Se existe um nome que se tornou sinônimo da era dos grandes bicheiros, esse nome é Castor de Andrade.
Nascido em 1926, Castor assumiu os negócios da família e construiu um enorme domínio sobre pontos do jogo do bicho na Zona Oeste do Rio de Janeiro.
Sua influência ultrapassou muito o universo das apostas.
Castor tornou-se uma das figuras mais importantes da história do Bangu Atlético Clube e foi patrono da Mocidade Independente de Padre Miguel.
Também teve enorme influência no carnaval carioca.
A imprensa chegou a tratá-lo como o “chefe dos chefes” entre os bicheiros.
Seu poder era tão grande que ele transitava entre empresários, políticos, policiais, dirigentes esportivos e figuras do carnaval.
Em 1993, Castor foi um dos 14 integrantes da cúpula condenados por formação de quadrilha armada. (ge)
Morreu em 1997, vítima de um ataque cardíaco.
Seu funeral tornou-se um acontecimento público e reuniu uma multidão ligada ao samba, ao futebol e ao mundo do jogo do bicho.
2. ANÍSIO ABRAÃO DAVID
O homem por trás da força da Beija-Flor
Outro nome fundamental dessa história é Anísio Abraão David.
Ligado à cidade de Nilópolis, na Baixada Fluminense, Anísio tornou-se uma das principais figuras da história da Beija-Flor de Nilópolis.
Sua influência ultrapassou o carnaval.
A família Abraão David também teve forte presença na política local.
Anísio chegou a presidir a Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro e tornou-se presidente de honra da Beija-Flor.
Em 1993, esteve entre os integrantes da cúpula condenados pela Justiça.
Anos depois, voltou a ser alvo de investigações e prisões relacionadas a operações contra organizações ligadas ao jogo ilegal.
Sua história mostra como o jogo do bicho passou a se misturar com carnaval, influência comunitária e política.
3. CAPITÃO GUIMARÃES
O estrategista da cúpula
Ailton Guimarães Jorge, conhecido como Capitão Guimarães, foi um dos personagens mais importantes da organização do jogo do bicho no Rio.
Seu apelido vinha de sua passagem pelo Exército.
Ele ficou conhecido não apenas por controlar territórios do jogo, mas também por seu papel na organização da chamada cúpula.
Fontes históricas o apontam como um dos principais articuladores da estrutura que reuniu os grandes banqueiros cariocas.
Capitão Guimarães também teve forte ligação com o carnaval e com a Unidos de Vila Isabel.
Em 1993, foi condenado junto aos demais integrantes da cúpula.
Décadas depois, continuou sendo citado em investigações envolvendo o jogo ilegal.
4. MIRO GARCIA
Um dos grandes nomes da Zona Norte
Waldemiro Garcia, conhecido como Miro Garcia, foi outro dos grandes nomes da cúpula.
Sua área de influência estava ligada principalmente à Zona Norte do Rio.
Miro também ficou associado ao Salgueiro, uma das escolas de samba mais tradicionais do carnaval carioca.
A família Garcia permaneceu importante no mundo do jogo do bicho mesmo depois da morte de Miro.
Seu filho, Maninho Garcia, assumiu parte da influência familiar.
A história dessa família posteriormente seria marcada por conflitos e assassinatos relacionados à disputa pelo controle dos territórios.
5. LUIZINHO DRUMMOND
O banqueiro da Leopoldina
Luiz Pacheco Drummond, conhecido como Luizinho Drummond, foi um dos principais banqueiros do jogo do bicho da Zona da Leopoldina.
Além de sua atuação na contravenção, tornou-se uma figura muito conhecida no carnaval.
Foi presidente da Imperatriz Leopoldinense e também presidiu a Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro.
Sua escola viveu um período de enorme sucesso durante sua gestão, conquistando um histórico tricampeonato entre 1999 e 2001.
Luizinho morreu em 2020.
6. JOSÉ CARUZZO ESCAFURA — "PIRUINHA"
Conhecido pelo apelido de Piruinha, José Caruzzo Escafura foi outro dos grandes nomes da velha geração de banqueiros.
Sua influência estava ligada principalmente à Zona Norte do Rio.
Piruinha também esteve associado ao universo das escolas de samba.
Ele integrou a estrutura da antiga cúpula do jogo do bicho e foi um dos nomes condenados no processo de 1993.
Sua família continuou sendo mencionada em disputas relacionadas aos territórios do jogo.
7. ANTÔNIO PETRUS KALIL — "TURCÃO"
Antônio Petrus Kalil, conhecido como Turcão, também fez parte da cúpula.
Seu nome aparece entre os 14 banqueiros condenados em 1993.
Turcão representava uma geração de banqueiros que havia transformado o jogo do bicho em uma atividade altamente organizada.
8. CARLINHOS MARACANÃ
Carlos Teixeira Martins, conhecido como Carlinhos Maracanã, também fez parte da antiga cúpula.
Seu apelido tornou-se conhecido no Rio de Janeiro e ele esteve ligado tanto ao jogo do bicho quanto ao mundo do samba.
Seu nome aparece entre os integrantes da cúpula condenados em 1993.
9. EMIL PINHEIRO
Emil Pinheiro foi outro personagem importante dessa geração.
Seu nome ficou especialmente conhecido pela ligação com o Botafogo, no futebol.
Assim como Castor e outros banqueiros, sua influência não ficou limitada ao jogo do bicho.
Ele também transitou pelo universo esportivo e social do Rio.
Emil integrou a lista dos 14 banqueiros condenados em 1993.
10. A NOVA GERAÇÃO: MANINHO GARCIA
Depois da geração dos grandes banqueiros, o poder começou a passar para os herdeiros.
Um dos casos mais conhecidos foi o de Waldemir Paes Garcia, o Maninho Garcia, filho de Miro Garcia.
Maninho passou a comandar parte dos territórios que haviam pertencido ao pai.
Ele ganhou fama de ser uma das figuras mais poderosas da nova geração.
Porém, sua trajetória terminou de maneira violenta.
Maninho foi assassinado em 2004, em frente a uma academia no Rio de Janeiro.
Sua morte abriu uma nova fase de disputas pelo controle dos territórios da família Garcia.
11. A FAMÍLIA CASTOR: A DISPUTA PELO IMPÉRIO
A morte de Castor de Andrade não significou o fim de seu império.
Pelo contrário.
Sua sucessão provocou uma das disputas mais conhecidas da história recente da contravenção carioca.
Entre os personagens envolvidos estavam seu sobrinho Rogério de Andrade e seu genro Fernando Iggnácio.
Fernando Iggnácio foi assassinado em 2020.
A disputa entre diferentes integrantes e herdeiros dessas famílias tornou-se uma das partes mais violentas da história recente do jogo do bicho.
12. QUANDO O PODER PASSOU DE PAI PARA FILHO
Uma característica marcante dessa história é a sucessão familiar.
Grandes territórios do jogo passaram de pais para filhos, sobrinhos ou outros parentes.
Assim surgiram verdadeiros clãs familiares.
A família Garcia.
A família Andrade.
A família Abraão.
A família Guimarães.
A família Escafura.
Cada uma construiu sua própria história e sua área de influência.
A sucessão, entretanto, nem sempre ocorreu de maneira pacífica.
Ao longo dos anos, assassinatos e atentados foram associados às disputas pelo controle desses territórios.
13. A GRANDE CONDENAÇÃO DE 1993
Um dos momentos mais importantes da história aconteceu em 1993.
A juíza Denise Frossard condenou 14 integrantes da cúpula do jogo do bicho por formação de quadrilha armada.
Entre eles estavam:
Castor de Andrade;
Anísio Abraão David;
Capitão Guimarães;
Luizinho Drummond;
Miro Garcia;
Piruinha;
Turcão;
Carlinhos Maracanã;
Emil Pinheiro;
Raul Capitão;
Haroldo Saens Peña;
Paulinho de Andrade;
além de outros integrantes da cúpula.
A decisão foi histórica porque atingiu praticamente toda a liderança da contravenção carioca.
14. O PODER QUE ULTRAPASSAVA O BICHO
O que tornou esses personagens tão influentes foi justamente o fato de que o poder deles não ficava restrito às apostas.
Eles passaram a ocupar espaços no:
- Carnaval
- Futebol
- Comunidades
- Economia informal
- Política
- Vida social
A relação entre os banqueiros e as escolas de samba tornou-se particularmente importante.
O dinheiro do jogo ajudou a financiar grandes desfiles e transformou alguns contraventores em verdadeiros patronos do carnaval.
OS CINCO GRANDES CLÃS
Segundo levantamentos históricos sobre a contravenção carioca, cinco famílias se destacaram especialmente na formação dessa estrutura:
- FAMÍLIA ANDRADE
Castor de Andrade
Ligação histórica com a Mocidade Independente de Padre Miguel e o Bangu.
- FAMÍLIA ABRAÃO
Anísio Abraão David
Ligação histórica com a Beija-Flor de Nilópolis.
- FAMÍLIA GUIMARÃES
Capitão Guimarães
Ligação histórica com a Vila Isabel e com a organização da cúpula.
- FAMÍLIA GARCIA
Miro Garcia
Ligação histórica com o Salgueiro e com territórios da Zona Norte.
- FAMÍLIA ESCAFURA
Piruinha
Ligação histórica com áreas da Zona Norte.
A CNN também identifica esses cinco grupos como nomes centrais na história da contravenção carioca.
O FIM DE UMA ERA
A morte de Castor de Andrade, em 1997, marcou simbolicamente o fim de uma era.
A geração que havia construído a grande cúpula começou a desaparecer.
Alguns morreram.
Outros foram presos.
Outros passaram o comando para familiares.
E novos grupos começaram a disputar o espaço deixado pelos antigos chefes.
O jogo do bicho, porém, continuou.
DE CASTOR AOS HERDEIROS
A geração atual da contravenção carioca é marcada por nomes que herdaram territórios e estruturas construídas pelos antigos banqueiros.
A família Andrade é um dos exemplos mais conhecidos.
Depois da morte de Castor, seu império foi dividido entre diferentes herdeiros e aliados.
A disputa acabou gerando conflitos que atravessaram décadas.
Isso mostra uma característica importante do jogo do bicho:
o verdadeiro poder nunca esteve apenas no bilhete.
Estava no controle territorial.
A PARTE MAIS SOMBRIA
A história dos grandes bicheiros não pode ser contada apenas como uma história de carnaval e personagens folclóricos.
Investigações e processos judiciais associaram integrantes da cúpula a crimes muito mais graves.
A própria investigação que levou à condenação de 1993 envolveu acusações de organização criminosa e violência.
Por isso, existe uma enorme diferença entre o folclore do “bicheiro benfeitor” e a realidade documentada pelas investigações policiais e judiciais.
A imagem do homem que financiava uma escola de samba ou ajudava moradores coexistia com uma estrutura clandestina e violenta.
Essa contradição é uma das características mais marcantes dessa história.
POR QUE ELES FICARAM TÃO PODEROSOS?
A resposta está em uma combinação de fatores:
DINHEIRO
O jogo movimentava grandes quantidades de dinheiro.
TERRITÓRIO
Cada banqueiro controlava determinadas regiões.
RELAÇÕES
Os bicheiros construíram relações com pessoas influentes.
CARNAVAL
O financiamento das escolas de samba aumentou sua popularidade.
FUTEBOL
Alguns também se tornaram patronos de clubes.
CLANDESTINIDADE
A proibição dificultava o controle público da atividade.
FAMÍLIA
O poder frequentemente era transmitido para parentes.
OS GRANDES BICHEIROS VIRARAM PERSONAGENS
A história do homem que virou símbolo do jogo do bicho
Doutor Castor é uma série documental brasileira lançada em 2021, dirigida por Marco Antônio Araújo e Arthur Muhlenberg. A produção reconstrói a trajetória de Castor de Andrade, passando pelo jogo do bicho, futebol, carnaval, política e pelas relações de poder que marcaram sua vida.
A série é particularmente interessante porque não apresenta apenas o “banqueiro do bicho”: mostra também como Castor construiu sua imagem pública e por que se tornou uma figura tão conhecida no Rio.
O título “Doutor Castor” faz referência à forma como ele era conhecido.
Castor de Andrade era uma figura extremamente popular em sua região.
Sua imagem pública estava muito além do universo das apostas.
Ele era associado ao Bangu Atlético Clube, à Mocidade Independente de Padre Miguel e a uma série de relações sociais que lhe deram grande notoriedade.
Vale o Escrito: A Guerra do Jogo do Bicho é uma série documental brasileira lançada em 2023, produzida pela TV Globo/Globoplay. A produção investiga a história do jogo do bicho no Rio de Janeiro, mas concentra boa parte da narrativa nas famílias que disputaram o poder da contravenção.
Diferentemente de Lei da Selva, que apresenta uma visão histórica mais ampla, Vale o Escrito mergulha bastante nas disputas familiares, sucessões, alianças e conflitos entre os grupos.
O que significa "Vale o Escrito"?
O título vem de uma expressão tradicional associada ao jogo do bicho:
“Vale o escrito.”
A ideia é que aquilo que está registrado no papel — a aposta, o resultado ou o compromisso — deve ser respeitado.
O título acaba funcionando como uma espécie de símbolo para todo o universo apresentado pela série.
LEI DA SELVA-A história do jogo do bicho
Lei da Selva – A História do Jogo do Bicho é uma série documental brasileira lançada em 29 de abril de 2022. Dirigida por Pedro Asbeg, e narrada por Marcelo Adnet. Ela tem 4 episódios e acompanha a história do jogo do bicho desde sua origem até a formação da cúpula de banqueiros e sua relação posterior com as milícias.
A série parte de uma história curiosa: o jogo nasceu no final do século XIX como uma forma de ajudar a financiar o Jardim Zoológico do Rio de Janeiro. Com o passar do tempo, porém, a brincadeira se transformou em uma enorme rede clandestina de apostas e poder.
A história dos grandes contraventores tornou-se tão extraordinária que acabou virando tema de:
📺 documentários
🎬 séries
📚 livros
📰 reportagens
🎭 obras sobre o carnaval
Um exemplo recente é a série documental “Vale o Escrito”, que recuperou histórias de famílias ligadas à contravenção carioca.
Também existem produções dedicadas especificamente à trajetória de Castor de Andrade.
A televisão acabou transformando personagens que durante décadas eram conhecidos apenas no Rio em figuras conhecidas nacionalmente.
O LEGADO CONTROVERSO
Talvez seja impossível contar a história do carnaval carioca do século XX sem mencionar a influência dos grandes banqueiros do jogo do bicho.
Eles financiaram escolas.
Construíram relações com comunidades.
Ajudaram a profissionalizar estruturas.
Mas fizeram isso dentro de uma atividade que permanecia proibida.
Essa é a grande contradição: eles ajudaram a construir parte do espetáculo do carnaval enquanto comandavam uma atividade clandestina.
OS HOMENS POR TRÁS DOS BICHOS
Durante décadas, os brasileiros olharam para os animais do jogo.
O elefante.
O leão.
O macaco.
A cobra.
O cavalo.
O tigre.
Mas por trás daqueles 25 bichos existia uma estrutura muito maior.
Homens que controlaram territórios.
Fortunas.
Escolas de samba.
Clubes de futebol.
E, em alguns casos, redes de influência que alcançaram setores importantes da sociedade.
Castor de Andrade, Anísio Abraão David, Capitão Guimarães, Miro Garcia, Luizinho Drummond, Piruinha, Turcão, Carlinhos Maracanã e outros nomes formaram a geração que transformou o jogo do bicho em um dos mais poderosos sistemas de contravenção da história brasileira.
A história deles é, ao mesmo tempo, uma história de dinheiro, poder, samba, futebol, política, violência e clandestinidade.
E talvez seja justamente por isso que, mais de um século depois de um simples sorteio criado em um zoológico, o Jogo do Bicho ainda desperte tanta curiosidade.
IMPORTANTE
Os personagens citados foram figuras reais ligadas, em diferentes graus, à história da contravenção carioca. As acusações, processos e condenações não são iguais para todos. Nesta matéria, termos como “bicheiro”, “banqueiro” e “contraventor” são usados no contexto histórico e jornalístico, e não como afirmação de que cada pessoa tenha sido condenada por todos os crimes atribuídos ao universo do jogo do bicho.
FONTES DE PESQUISA
CNN Brasil — histórico dos principais nomes da contravenção carioca. (CNN Brasil)
O Globo/GE — investigação e condenação da cúpula do jogo do bicho. (ge)
Folha de S.Paulo — cobertura das condenações dos principais banqueiros. (Folha de S.Paulo)
Revista Terceiro Milênio/UENF — pesquisa acadêmica sobre a organização do jogo do bicho. (Revista Terceiro Milênio)
UOL — relação entre jogo do bicho, futebol e grandes banqueiros. (UOL)
O PALPITE QUE VINHA DO CAFÉ
Desde criança, guardo uma lembrança muito curiosa — e que hoje, ao pesquisar a história do jogo do bicho, percebo que fazia parte daquele universo de crenças, superstições e maneiras populares de buscar um palpite.
Todas as manhãs, minha mãe e um primo já idoso tinham um pequeno ritual. O café na xícara ainda quente, e começava a tentativa de descobrir qual seria o bicho daquele dia.
Eles riscavam um fósforo e o colocavam na xícara com café. Depois, observavam atentamente as formas que apareciam, procurando nelas alguma imagem que pudesse lembrar um animal.
Era quase como uma brincadeira de adivinhação.
— “Olha! Está formando um bicho!”
E começava a interpretação.
Um contorno aqui, uma mancha ali, uma forma que lembrava uma cabeça, um corpo, uma pata... Aos olhos de quem acreditava, aquela imagem podia revelar o palpite do dia.
E o mais curioso é que dava certo. Sempre ganhavam. 😄
Quando o café e o fósforo não traziam nenhuma resposta, havia outra maneira de procurar o palpite: os sonhos.
Minha mãe e meu primo também acreditavam muito nos sonhos. Às vezes aparecia um animal durante a noite. Outras vezes, surgiam números. Pela manhã, o sonho era contado, interpretado e transformado em uma possibilidade de aposta.
Era interessante observar como eles conseguiam transformar acontecimentos aparentemente comuns em sinais.
- Um sonho com um animal podia virar um bicho.
- Um número que aparecia durante o sonho podia ganhar significado.
- Uma imagem formada no café podia ser interpretada como uma mensagem.
- E tudo era levado muito a sério.
MINHA MEMÓRIA DE INFÂNCIA:
Eu era criança e não entendia exatamente toda aquela tradição. Para mim, aquilo fazia parte da rotina da casa.
O que ficou na memória não foi apenas o jogo, mas a cena: a xícara de café, o fósforo, os dois observando atentamente e tentando descobrir alguma forma escondida.
Hoje, olhando para trás, percebo que aquela pequena cerimônia também fazia parte de uma cultura popular que atravessou gerações.
Não havia aplicativo, internet ou resultado instantâneo.
Havia café, sonhos, números, histórias e muita imaginação.
E talvez seja justamente isso que torne essa lembrança tão especial.
Porque, para eles, não era simplesmente escolher um número ou um animal.
Era tentar encontrar um sinal escondido no cotidiano.
E quando o resultado coincidia com aquilo que haviam interpretado pela manhã, a sensação era de que o café, o sonho ou o acaso realmente tinham contado alguma coisa.
☕ Uma xícara, um fósforo e um palpite.
Para mim, essa é uma das lembranças mais curiosas da infância e uma pequena história familiar que ajuda a entender como o jogo do bicho também entrou no imaginário e nas tradições de tantas famílias brasileiras.
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