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quinta-feira, 17 de setembro de 2026

O Caso Evandro — o desaparecimento que chocou o Paraná e revelou uma das histórias criminais mais controversas do Brasil

Caso Evandro — o desaparecimento que chocou o Paraná e revelou uma das histórias criminais mais controversas do Brasil

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Em abril de 1992, o desaparecimento de um menino de apenas seis anos transformou uma cidade do litoral do Paraná em cenário de uma das investigações criminais mais acompanhadas pela imprensa brasileira.

O menino era Evandro Ramos Caetano, desaparecido em 6 de abril de 1992, em Guaratuba. A partir daquele momento, uma enorme operação de busca começou, mas o que inicialmente parecia ser mais um caso de criança desaparecida rapidamente ganhou contornos muito mais complexos.

Dias depois, um corpo foi encontrado e identificado como sendo o de Evandro. A investigação passou a apontar para um suposto ritual de sacrifício, e pessoas foram presas e apresentadas como responsáveis pelo crime.

A história ganhou enorme repercussão. Jornais e programas de televisão passaram a utilizar expressões como "bruxas de Guaratuba" e a associar os suspeitos a práticas de magia negra e satanismo.

Décadas depois, porém, novas investigações sobre o próprio processo revelariam uma série de questionamentos envolvendo as confissões dos acusados, especialmente depois da localização e análise de gravações que registraram parte dos interrogatórios.

É justamente essa história que o documentário O Caso Evandro, lançado pelo Globoplay em 2021, apresenta ao público. A série foi baseada na quarta temporada do podcast Projeto Humanos, produzido por Ivan Mizanzuk. 


O desaparecimento de Evandro

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Na manhã de 6 de abril de 1992, Evandro saiu de casa em Guaratuba.

Segundo a reconstrução apresentada pelo Projeto Humanos e posteriormente pela série documental, o menino pretendia encontrar a mãe em seu trabalho. Em determinado momento, percebeu que havia esquecido seu videogame e voltou para casa. Depois disso, desapareceu.

Evandro tinha apenas seis anos.

O desaparecimento provocou uma mobilização imediata da família e da comunidade. A procura pelo menino envolveu moradores, policiais e outras pessoas que passaram a percorrer diferentes áreas de Guaratuba.

Naquele período, o Paraná já vivia um clima de preocupação provocado por outros desaparecimentos de crianças. Por isso, o caso de Evandro rapidamente ganhou uma dimensão muito maior do que a de uma ocorrência policial local.

A ausência de respostas alimentava a angústia da família e também o medo da população.

A própria página oficial do Projeto Humanos registra que o desaparecimento ocorreu em 6 de abril de 1992 e que, poucos dias depois, um corpo foi encontrado. 


A descoberta do corpo

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A descoberta de um corpo mudou completamente os rumos da investigação.

O cadáver apresentava sinais que chamaram a atenção dos investigadores e da imprensa. O corpo foi levado ao Instituto Médico-Legal de Paranaguá, onde o pai de Evandro conseguiu reconhecer o filho por uma marca de nascença nas costas. 

A partir desse momento, a investigação deixou de ser apenas uma busca por uma criança desaparecida e passou a ser uma investigação de homicídio.

E foi justamente nessa fase que começaram a surgir as teorias mais extraordinárias em torno do caso.

A polícia passou a trabalhar com a hipótese de que Evandro teria sido vítima de um ritual.

A narrativa de um suposto ritual de sacrifício ganhou enorme espaço nos meios de comunicação. O caso passou a ser apresentado ao público com elementos de mistério, religião, ocultismo e suposta magia negra.

O medo tomou conta de muitas famílias paranaenses.

O apelido "Bruxas de Guaratuba" acabou se tornando uma das expressões mais conhecidas relacionadas ao caso.


Quem eram os acusados?

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A investigação levou à prisão de várias pessoas.

Entre os nomes mais conhecidos estavam Beatriz Abagge, sua mãe Celina Abagge, Osvaldo Marcineiro, Davi dos Santos Soares e outros envolvidos que acabaram sendo acusados em diferentes momentos do processo.

O grupo passou a ser relacionado à suposta prática de um ritual que teria resultado na morte de Evandro.

Na época, a imprensa teve papel fundamental na maneira como a história chegou ao público. Os suspeitos passaram a ser retratados como integrantes de um grupo envolvido com práticas ocultistas.

O problema é que, com o passar dos anos, muitos desses elementos começaram a ser questionados.

O próprio Projeto Humanos explica que uma das preocupações da investigação realizada por Ivan Mizanzuk foi justamente entender como os acusados haviam sido apresentados publicamente e verificar o que realmente estava sustentado pelos documentos do processo. 


As famosas "confissões"

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Um dos elementos mais importantes de toda a história são as confissões.

Na época, alguns dos acusados confessaram participação no crime.

Essas confissões foram utilizadas pela acusação como parte importante da construção do caso.

Existiam gravações em vídeo e áudio relacionadas aos interrogatórios. Algumas delas foram registradas pelo Grupo Águia, da Polícia Militar, durante as prisões realizadas em julho de 1992. 

O problema surgiu quando essas gravações passaram a ser analisadas novamente décadas depois.

A pergunta deixou de ser apenas:

"O que os acusados confessaram?"

E passou a ser:

"Em quais circunstâncias essas confissões foram obtidas?"

Essa mudança é fundamental para compreender por que o Caso Evandro voltou a ocupar o noticiário muitos anos depois.


As acusações de tortura

Essa é uma das partes mais delicadas e importantes da história.

Desde os primeiros momentos, alguns dos acusados afirmaram que haviam sido submetidos a tortura durante os interrogatórios.

Eles sustentavam que as confissões não eram verdadeiras e que haviam sido obrigados a apresentar versões do crime.

Durante muitos anos, essas alegações permaneceram no centro de uma disputa entre as versões apresentadas pelas defesas e pelas autoridades envolvidas na investigação.

O assunto ganhou uma nova dimensão quando gravações até então pouco conhecidas foram recuperadas e analisadas.

O Projeto Humanos publicou material que, segundo sua investigação, registrava sessões de interrogatório nas quais aparecem indícios de violência física e psicológica. 

As gravações mostravam diferenças importantes entre versões apresentadas pelos acusados e também mudanças na narrativa durante os interrogatórios.

Esse material passou a ser fundamental para a revisão histórica e jurídica do caso.


As fitas que mudaram a história

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Em 2020, o Projeto Humanos apresentou um dos elementos mais impactantes de sua investigação: gravações que, segundo a apuração do podcast, registravam sessões de tortura relacionadas às confissões.

O material foi analisado dentro de um trabalho que levou anos.

Uma das características mais importantes das gravações era justamente a possibilidade de ouvir as vozes e perceber as circunstâncias em que determinadas declarações eram feitas.

Em um dos registros envolvendo Osvaldo Marcineiro, por exemplo, a narrativa apresentada por ele sofre alterações durante a gravação.

O Projeto Humanos relata que, durante determinadas sessões, Osvaldo inicialmente apresentava uma versão na qual dizia ter agido sozinho. Posteriormente, novos nomes eram acrescentados à história. 

Esse tipo de mudança tornou-se um dos elementos analisados posteriormente pela defesa e pelo Judiciário.

Não se tratava simplesmente de descobrir uma nova testemunha ou uma nova pista.

Tratava-se de questionar a própria confiabilidade de uma das principais bases utilizadas para sustentar as acusações.


O trabalho de Ivan Mizanzuk

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A história ganhou uma nova dimensão graças ao trabalho do jornalista e pesquisador Ivan Mizanzuk.

Mizanzuk começou a pesquisar profundamente o caso anos depois dos acontecimentos.

O resultado foi a quarta temporada do podcast Projeto Humanos, chamada O Caso Evandro.

O primeiro episódio foi publicado em 31 de outubro de 2018.

O trabalho não se limitou a recontar o que já havia sido publicado pela imprensa.

Foram analisados documentos, processos, depoimentos, gravações, reportagens antigas e entrevistas com pessoas relacionadas ao caso.

O projeto se tornou extremamente extenso. A temporada foi dividida em várias partes e chegou a abordar as confissões, os álibis, as testemunhas, o corpo, outros suspeitos e diferentes aspectos da investigação. 

O próprio Projeto Humanos disponibilizou uma espécie de enciclopédia do caso, reunindo documentos, fotografias, vídeos, matérias jornalísticas, mapas e informações sobre os personagens. 


Do podcast para a televisão

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Depois do enorme impacto do podcast, a história chegou à televisão.

Em 2021, o Globoplay lançou a série documental O Caso Evandro, baseada na temporada do Projeto Humanos.

A produção foi dirigida por Michelle Chevrand e Aly Muritiba, com roteiro de Angelo Defanti, Arthur Warren, Ludmila Naves e Tainá Muhringer. 

A série possui 9 episódios.

O primeiro episódio, chamado "O Crime", apresenta o desaparecimento de Evandro.

Depois vêm episódios dedicados aos acusados, à cobertura da imprensa, às alegações de tortura, aos álibis, à descoberta do corpo e às consequências da investigação.

A estrutura permite acompanhar o caso não apenas como uma história criminal, mas também como uma investigação sobre a própria investigação.