Caso Evandro — o desaparecimento que chocou o Paraná e revelou uma das histórias criminais mais controversas do Brasil
Em abril de 1992, o desaparecimento de um menino de apenas seis anos transformou uma cidade do litoral do Paraná em cenário de uma das investigações criminais mais acompanhadas pela imprensa brasileira.
O menino era Evandro Ramos Caetano, desaparecido em 6 de abril de 1992, em Guaratuba. A partir daquele momento, uma enorme operação de busca começou, mas o que inicialmente parecia ser mais um caso de criança desaparecida rapidamente ganhou contornos muito mais complexos.
Dias depois, um corpo foi encontrado e identificado como sendo o de Evandro. A investigação passou a apontar para um suposto ritual de sacrifício, e pessoas foram presas e apresentadas como responsáveis pelo crime.
A história ganhou enorme repercussão. Jornais e programas de televisão passaram a utilizar expressões como "bruxas de Guaratuba" e a associar os suspeitos a práticas de magia negra e satanismo.
Décadas depois, porém, novas investigações sobre o próprio processo revelariam uma série de questionamentos envolvendo as confissões dos acusados, especialmente depois da localização e análise de gravações que registraram parte dos interrogatórios.
É justamente essa história que o documentário O Caso Evandro, lançado pelo Globoplay em 2021, apresenta ao público. A série foi baseada na quarta temporada do podcast Projeto Humanos, produzido por Ivan Mizanzuk.
O desaparecimento de Evandro
Na manhã de 6 de abril de 1992, Evandro saiu de casa em Guaratuba.
Segundo a reconstrução apresentada pelo Projeto Humanos e posteriormente pela série documental, o menino pretendia encontrar a mãe em seu trabalho. Em determinado momento, percebeu que havia esquecido seu videogame e voltou para casa. Depois disso, desapareceu.
Evandro tinha apenas seis anos.
O desaparecimento provocou uma mobilização imediata da família e da comunidade. A procura pelo menino envolveu moradores, policiais e outras pessoas que passaram a percorrer diferentes áreas de Guaratuba.
Naquele período, o Paraná já vivia um clima de preocupação provocado por outros desaparecimentos de crianças. Por isso, o caso de Evandro rapidamente ganhou uma dimensão muito maior do que a de uma ocorrência policial local.
A ausência de respostas alimentava a angústia da família e também o medo da população.
A própria página oficial do Projeto Humanos registra que o desaparecimento ocorreu em 6 de abril de 1992 e que, poucos dias depois, um corpo foi encontrado.
A descoberta do corpo
A descoberta de um corpo mudou completamente os rumos da investigação.
O cadáver apresentava sinais que chamaram a atenção dos investigadores e da imprensa. O corpo foi levado ao Instituto Médico-Legal de Paranaguá, onde o pai de Evandro conseguiu reconhecer o filho por uma marca de nascença nas costas.
A partir desse momento, a investigação deixou de ser apenas uma busca por uma criança desaparecida e passou a ser uma investigação de homicídio.
E foi justamente nessa fase que começaram a surgir as teorias mais extraordinárias em torno do caso.
A polícia passou a trabalhar com a hipótese de que Evandro teria sido vítima de um ritual.
A narrativa de um suposto ritual de sacrifício ganhou enorme espaço nos meios de comunicação. O caso passou a ser apresentado ao público com elementos de mistério, religião, ocultismo e suposta magia negra.
O medo tomou conta de muitas famílias paranaenses.
O apelido "Bruxas de Guaratuba" acabou se tornando uma das expressões mais conhecidas relacionadas ao caso.
Quem eram os acusados?
A investigação levou à prisão de várias pessoas.
Entre os nomes mais conhecidos estavam Beatriz Abagge, sua mãe Celina Abagge, Osvaldo Marcineiro, Davi dos Santos Soares e outros envolvidos que acabaram sendo acusados em diferentes momentos do processo.
O grupo passou a ser relacionado à suposta prática de um ritual que teria resultado na morte de Evandro.
Na época, a imprensa teve papel fundamental na maneira como a história chegou ao público. Os suspeitos passaram a ser retratados como integrantes de um grupo envolvido com práticas ocultistas.
O problema é que, com o passar dos anos, muitos desses elementos começaram a ser questionados.
O próprio Projeto Humanos explica que uma das preocupações da investigação realizada por Ivan Mizanzuk foi justamente entender como os acusados haviam sido apresentados publicamente e verificar o que realmente estava sustentado pelos documentos do processo.
As famosas "confissões"
Um dos elementos mais importantes de toda a história são as confissões.
Na época, alguns dos acusados confessaram participação no crime.
Essas confissões foram utilizadas pela acusação como parte importante da construção do caso.
Existiam gravações em vídeo e áudio relacionadas aos interrogatórios. Algumas delas foram registradas pelo Grupo Águia, da Polícia Militar, durante as prisões realizadas em julho de 1992.
O problema surgiu quando essas gravações passaram a ser analisadas novamente décadas depois.
A pergunta deixou de ser apenas:
"O que os acusados confessaram?"
E passou a ser:
"Em quais circunstâncias essas confissões foram obtidas?"
Essa mudança é fundamental para compreender por que o Caso Evandro voltou a ocupar o noticiário muitos anos depois.
As acusações de tortura
Essa é uma das partes mais delicadas e importantes da história.
Desde os primeiros momentos, alguns dos acusados afirmaram que haviam sido submetidos a tortura durante os interrogatórios.
Eles sustentavam que as confissões não eram verdadeiras e que haviam sido obrigados a apresentar versões do crime.
Durante muitos anos, essas alegações permaneceram no centro de uma disputa entre as versões apresentadas pelas defesas e pelas autoridades envolvidas na investigação.
O assunto ganhou uma nova dimensão quando gravações até então pouco conhecidas foram recuperadas e analisadas.
O Projeto Humanos publicou material que, segundo sua investigação, registrava sessões de interrogatório nas quais aparecem indícios de violência física e psicológica.
As gravações mostravam diferenças importantes entre versões apresentadas pelos acusados e também mudanças na narrativa durante os interrogatórios.
Esse material passou a ser fundamental para a revisão histórica e jurídica do caso.
As fitas que mudaram a história
Em 2020, o Projeto Humanos apresentou um dos elementos mais impactantes de sua investigação: gravações que, segundo a apuração do podcast, registravam sessões de tortura relacionadas às confissões.
O material foi analisado dentro de um trabalho que levou anos.
Uma das características mais importantes das gravações era justamente a possibilidade de ouvir as vozes e perceber as circunstâncias em que determinadas declarações eram feitas.
Em um dos registros envolvendo Osvaldo Marcineiro, por exemplo, a narrativa apresentada por ele sofre alterações durante a gravação.
O Projeto Humanos relata que, durante determinadas sessões, Osvaldo inicialmente apresentava uma versão na qual dizia ter agido sozinho. Posteriormente, novos nomes eram acrescentados à história.
Esse tipo de mudança tornou-se um dos elementos analisados posteriormente pela defesa e pelo Judiciário.
Não se tratava simplesmente de descobrir uma nova testemunha ou uma nova pista.
Tratava-se de questionar a própria confiabilidade de uma das principais bases utilizadas para sustentar as acusações.
O trabalho de Ivan Mizanzuk
A história ganhou uma nova dimensão graças ao trabalho do jornalista e pesquisador Ivan Mizanzuk.
Mizanzuk começou a pesquisar profundamente o caso anos depois dos acontecimentos.
O resultado foi a quarta temporada do podcast Projeto Humanos, chamada O Caso Evandro.
O primeiro episódio foi publicado em 31 de outubro de 2018.
O trabalho não se limitou a recontar o que já havia sido publicado pela imprensa.
Foram analisados documentos, processos, depoimentos, gravações, reportagens antigas e entrevistas com pessoas relacionadas ao caso.
O projeto se tornou extremamente extenso. A temporada foi dividida em várias partes e chegou a abordar as confissões, os álibis, as testemunhas, o corpo, outros suspeitos e diferentes aspectos da investigação.
O próprio Projeto Humanos disponibilizou uma espécie de enciclopédia do caso, reunindo documentos, fotografias, vídeos, matérias jornalísticas, mapas e informações sobre os personagens.
Do podcast para a televisão
Depois do enorme impacto do podcast, a história chegou à televisão.
Em 2021, o Globoplay lançou a série documental O Caso Evandro, baseada na temporada do Projeto Humanos.
A produção foi dirigida por Michelle Chevrand e Aly Muritiba, com roteiro de Angelo Defanti, Arthur Warren, Ludmila Naves e Tainá Muhringer.
A série possui 9 episódios.
O primeiro episódio, chamado "O Crime", apresenta o desaparecimento de Evandro.
Depois vêm episódios dedicados aos acusados, à cobertura da imprensa, às alegações de tortura, aos álibis, à descoberta do corpo e às consequências da investigação.
A estrutura permite acompanhar o caso não apenas como uma história criminal, mas também como uma investigação sobre a própria investigação.