sexta-feira, 14 de outubro de 2011

A ARTE COM DISQUETES E FITAS K7 POR NICK GENTRY

NICK GENTRY: QUANDO DISQUETES E FITAS K7 VIRAM ARTE

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Há um tempo em que guardar informações significava colocar arquivos dentro de um disquete, ouvir música em uma fita K7 ou assistir a um filme em VHS. Eram objetos comuns, presentes em casas, escolas, escritórios e locadoras. Hoje, muitos deles se tornaram peças de uma tecnologia praticamente esquecida.

O artista britânico Nick Gentry encontrou justamente nesses objetos ultrapassados uma matéria-prima para criar seus retratos e obras contemporâneas.

Em vez de simplesmente jogar fora aquilo que perdeu sua função original, Gentry transforma esses vestígios da era analógica e do início da era digital em arte. Seu trabalho questiona o que acontece com nossas memórias, identidades e informações quando a tecnologia que as armazenava deixa de existir.


QUEM É NICK GENTRY?

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Nick Gentry é um artista britânico nascido em Londres, em 1980. Formou-se em Graphic Arts pela Liverpool Art School e posteriormente realizou mestrado em Applied Imagination na Central Saint Martins. 

Sua produção artística é marcada pela utilização de materiais tecnológicos descartados ou obsoletos.

Entre os materiais que aparecem em diferentes fases de sua carreira estão:

  • disquetes;

  • fitas VHS;

  • negativos fotográficos;

  • cartões perfurados;

  • radiografias;

  • outros materiais relacionados à história da tecnologia e do armazenamento de informações.

O próprio artista descreve sua produção como uma maneira de utilizar os restos físicos de nossas vidas digitais para contar histórias humanas. 


OS RETRATOS FEITOS COM DISQUETES

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Entre seus trabalhos mais conhecidos estão os retratos construídos sobre disquetes de computador.

Os antigos discos de 3,5 polegadas são organizados lado a lado e recebem pintura, formando rostos humanos.

O resultado é curioso: de longe, podemos enxergar um retrato; de perto, percebemos que aquele rosto é composto por dezenas de pequenos pedaços da tecnologia que um dia armazenou dados.

Os círculos metálicos centrais dos disquetes frequentemente aparecem incorporados aos rostos, criando olhos que dão às figuras uma aparência quase humana e, ao mesmo tempo, mecânica. 

É justamente essa mistura que torna as obras tão características.

O rosto representa o ser humano.

O disquete representa a tecnologia.

E os dois juntos criam uma espécie de retrato da transformação da sociedade.


MAS O QUE HAVIA DENTRO DESSES DISQUETES?

Essa é uma das partes mais interessantes do trabalho de Gentry.

Os disquetes utilizados pelo artista não são simplesmente objetos novos comprados para servir de material artístico.

Muitos foram doados pelo público.

Segundo o próprio artista, suas obras são construídas com tecnologias obsoletas fornecidas por pessoas que desejam contribuir com os projetos. 

Isso significa que aqueles pequenos discos podem ter pertencido a pessoas diferentes e ter carregado, no passado, diferentes tipos de informação.

Um disquete poderia ter armazenado um documento, um programa, um jogo, uma fotografia ou arquivos pessoais.

Hoje, porém, seu conteúdo original pode ser inacessível.

A informação desapareceu.

O objeto permaneceu.

E Gentry transforma esse objeto em uma nova forma de memória.


A TECNOLOGIA QUE ENVELHECEU

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O disquete já foi considerado uma tecnologia indispensável.

Durante décadas, ele foi utilizado para transportar e armazenar arquivos digitais.

Mas a tecnologia avançou rapidamente.

CDs substituíram muitos disquetes. Depois vieram DVDs, pendrives, cartões de memória, armazenamento em nuvem e outras formas de guardar informações.

O próprio Gentry utiliza a obsolescência do disquete como símbolo dessa velocidade. Em um texto sobre sua série Auto-Emotion, o artista observa que os produtos tecnológicos possuem ciclos de vida cada vez mais rápidos e que aquilo que foi indispensável pode rapidamente se transformar em artefato. 


E AS FITAS K7?

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A relação de Gentry com a tecnologia antiga não termina nos disquetes.

Sua produção também inclui trabalhos realizados com fitas e mídias magnéticas, especialmente VHS.

As fitas são desmontadas ou utilizadas como elementos estruturais das obras, criando superfícies diferentes das pinturas tradicionais.

O material que antes carregava imagens e sons passa a participar da construção de uma nova imagem.

É uma espécie de transformação:

informação → objeto → arte.

Em sua produção mais recente, o artista mantém essa investigação sobre identidade, memória e tecnologia, trabalhando também com VHS, negativos fotográficos, cartões perfurados e outros materiais. 


“A IMAGEM DENTRO DA IMAGEM”

Uma das características mais interessantes dos trabalhos de Gentry é que existem duas histórias acontecendo simultaneamente.

Existe a imagem que o artista criou.

Mas também existe a história dos objetos utilizados para construí-la.

Um rosto pode ser formado por dezenas de disquetes que anteriormente tiveram proprietários diferentes.

Assim, cada obra pode ser entendida como uma espécie de colagem de pequenas histórias desconhecidas.

Não sabemos necessariamente quem utilizou determinado disquete ou o que estava armazenado nele.

Essa ausência de informação também faz parte do fascínio.


MEMÓRIA DIGITAL E IDENTIDADE

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Os retratos de Gentry não falam apenas sobre computadores antigos.

Eles também abordam uma questão muito atual: a nossa identidade está cada vez mais ligada às informações que produzimos e armazenamos.

Fotografias, mensagens, documentos, perfis e registros digitais formam uma espécie de arquivo de nossas vidas.

Mas a tecnologia utilizada para guardar essas informações pode desaparecer.

Um arquivo criado décadas atrás pode continuar existindo, mas o dispositivo necessário para acessá-lo pode ter se tornado raro.

É justamente essa contradição que aparece nas obras de Gentry:

guardamos cada vez mais informações, mas também dependemos cada vez mais de tecnologias que rapidamente envelhecem.


“THE IMMORTAL”

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Um dos trabalhos que representam essa fase é The Immortal, de 2011.

A obra foi realizada com óleo e disquetes usados sobre madeira, utilizando discos que foram contribuídos por membros do público. 

O próprio título — The Immortal, ou “O Imortal” — acrescenta uma camada interessante à obra.

Os disquetes foram produzidos para armazenar informações temporariamente, mas acabaram sendo transformados em algo que permanece como objeto artístico.

Aquilo que era considerado ultrapassado ganha uma nova existência.


ARTE E RECICLAGEM

O trabalho de Gentry também pode ser relacionado ao reaproveitamento.

Em vez de tratar a tecnologia descartada simplesmente como lixo, o artista encontra uma nova função para ela.

Mas existe uma diferença importante:

ele não tenta esconder o passado dos objetos.

Pelo contrário.

Ele deixa os disquetes visíveis.

Suas etiquetas, cores, formatos e partes metálicas continuam fazendo parte da composição.

O passado tecnológico não é apagado.

Ele é incorporado à obra.


QUANDO A TECNOLOGIA VIRA RELÍQUIA

Talvez seja justamente aí que a obra de Nick Gentry fique mais interessante.

Para quem viveu as décadas de 1980, 1990 e início dos anos 2000, disquetes, fitas K7 e VHS fazem parte de uma memória cotidiana.

Para gerações mais novas, muitos desses objetos parecem quase peças de museu.

Gentry transforma essa diferença entre gerações em linguagem artística.

Se antes o disquete guardava arquivos, agora ele ajuda a guardar memórias sobre uma época.

Se a fita K7 registrava uma música, agora sua própria existência registra a história de uma tecnologia.


CURIOSIDADES SOBRE NICK GENTRY

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• Os materiais vêm do público:
Gentry utiliza materiais tecnológicos que são contribuídos por pessoas para seus projetos. 

• Os disquetes não são apenas decoração:
Eles funcionam como parte da própria estrutura dos retratos.

• O centro metálico virou elemento visual:
Em vários retratos, o círculo metálico do disquete acaba funcionando visualmente como um olho. 

• Ele trabalha com diferentes tecnologias:
Além dos disquetes, sua produção inclui VHS, negativos de filme, cartões perfurados e radiografias. 

• A obsolescência é um tema recorrente:
Sua obra investiga o que acontece quando tecnologias antes indispensáveis deixam de fazer parte da vida cotidiana.

• A arte também funciona como memória:
Os objetos descartados carregam a lembrança de uma época tecnológica que passou.


UMA ARTE QUE FAZ A GENTE LEMBRAR

Nick Gentry não precisa utilizar computadores modernos, inteligência artificial ou telas digitais para falar sobre tecnologia.

Ele olha para aquilo que ficou para trás.

Um disquete aparentemente inútil.

Uma fita que ninguém mais consegue reproduzir facilmente.

Um pedaço de tecnologia esquecido dentro de uma gaveta.

E transforma tudo isso em uma pergunta:

o que acontece com as coisas que um dia foram importantes quando deixam de ser necessárias?

Talvez suas obras sejam justamente uma resposta: algumas coisas podem perder sua função, mas não precisam perder sua história.

Os disquetes deixaram de ser uma das principais formas de armazenamento de dados. As fitas K7 deixaram de ser o meio dominante para ouvir música. As fitas VHS deixaram de ser o padrão para assistir a filmes.

Mas, nas mãos de Nick Gentry, esses objetos ganham uma segunda vida.

Eles deixam de ser apenas tecnologia obsoleta e passam a ser memória transformada em arte.

E talvez seja isso que torne seus retratos tão curiosos: quando olhamos para um rosto feito de disquetes, não estamos vendo somente uma pintura.

Estamos olhando para um pedaço da história da tecnologia diante dos nossos olhos.


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