domingo, 9 de abril de 2017

LAGO TITICACA


Nativa da Ilha de Amantani avista o Titicaca

Em tempos remotos, uma comunidade vivia feliz em um vale dos Andes. Nada faltava para esses homens que não conheciam a morte, o ódio e a ambição. Os deuses das montanhas, denominados Apus, os protegiam com apenas uma condição: ninguém podia subir os montes, onde ardia o Fogo Sagrado. Um dia, espíritos malignos resolveram semear a discórdia, desafiando os habitantes a alcançarem o alto das montanhas como prova de coragem.
Os Apus, contrariados com a desobediência, soltaram os milhares de pumas que viviam em cavernas, exterminando toda a população. Diante da chacina, Inti, o Deus Sol, chorou por 40 dias e suas lágrimas inundaram o vale. Uma mulher e um homem sobreviveram em meio às águas e aos pumas, que se transformaram em estátuas de pedra. O casal chamou o lago que acabava de se formar de Titicaca (em quechua, "o lago dos pumas de pedra"), fundando, assim, o Império Inca.
Entre uma história e outra, começa a minha vivência de cinco dias pelas comunidades do mais alto lago navegável do mundo, a 3.810 metros acima do nível do mar. As populações que hoje vivem sobre as terras que emergem e rodeiam o Titicaca não somente preservam as lendas milenárias dos seus antepassados, como também compreendem a natureza como parte de um todo da qual fazemos parte. O cenário é mesmo um convite a compartilhar a vida: uma imensidão azul que contrasta com o branco das nuvens e dos picos nevados bem ao fundo. A sensação é de navegar entre o limite do céu e da terra. 

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Turistas de todos os cantos da planeta chegam diariamente para conferir a singular paisagem do segundo maior lago da América do Sul, dividido hoje entre os territórios do Peru e da Bolívia. Puno, terra ancestral de quechuas, aimaras, uros, pacajes, puquinas e outras diversas culturas pré-hispânicas que habitaram os Andes, é a cidade do lado peruano que serve de ponto de partida dos roteiros que levam às ilhas e comunidades à beira do Titicaca.
Uros é a primeira parada. A apenas 20 minutos de Puno, o arquipélago não é exatamente o que costumamos chamar de terra firme. Considerado um caso único no mundo, centenas de famílias vivem nas 40 ilhas artificiais feitas de totora, uma planta aquática que nasce no lago. Desde 1.200 d.C., os Uros vêm utilizando a fibra natural para a fabricação das suas ilhas, casas, barcos e artesanatos. O mais curioso é que esses habitantes, descendentes diretos de uma das culturas mais antigas do continente, também se alimentam da tal planta. 
Apesar de o guia que acompanha o meu grupo explicar que a principal atividade da população de 3.000 habitantes é a pesca artesanal, fica nítido que Uros e sua ilhas flutuantes sobrevivem hoje graças ao turismo promovido pelas agências que oferecem visitas diárias à ilha. Mas a permanência dos turistas na comunidade não dura mais que 30 minutos, tornando o contato entre estrangeiro e local um tanto distante. 


Casa da comunidade de Llachón recebe visitantes no programa de turismo vivencial

Mais uma hora de barco e me despeço do grupo para conhecer Llachón, comunidade quechua de 1.330 habitantes, localizada na ponta final da península de Capachica, às margens do Titicaca. Ao colocar o pé nas areias brancas da vazia praia do lugar, tive a certeza de que se tratava de terras menos conhecidas, ainda não contaminadas pelas empresas turísticas. 
Valentin Quispe, o campesino de 47 anos que me recebe para passar a noite em sua casa, explica que a proposta é que o visitante se hospede em uma das casas das famílias do lugar e participe das atividades mais rotineiras da comunidade como a pesca, a agricultura e o artesanato. A idéia não é exclusiva de Llachón e faz parte de um conceito chamado turismo vivencial, que surgiu na década de 70 na Ilha de Taquile, também terras do Titicaca. 
A comunidade de Llachón começou a se organizar para desenvolver o turismo rural, como essa modalidade de turismo também é conhecida, em 1996, tornando-se hoje um exemplo de conduta no ramo. "Fizemos um acordo para não vendermos nossas terras a ninguém de fora, além de decretarmos que está proibido a construção de hotéis e pousadas", declara Valentin, que vive no terreno que é de sua família há mais de 250 anos. 

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Um dos atrativos do lugar, além da vivência com os moradores, é uma caminhada de três horas (somando subida e descida) que leva a um templo cerimonial pré-inca, a mais de 4.000 metros de altitude. É no alto da montanha que se realiza todos os anos o Pago a la Tierra, o mais representativo ritual da religião andina. "Acreditamos na terra e no lago porque são sagrados. Queremos o turista responsável, que cuide do meio ambiente e que saiba respeitar a nossa cultura", deixa claro o campesino antes de eu seguir viagem. 
O porto seguinte é a Ilha de Amantaní, com 4.000 habitantes e a três horas e meia de barco de Puno. Aqui os interessados em experimentar o turismo vivencial (em sua maioria europeus) chegam todos os dias. Desde os anos 80, as famílias das nove comunidades acolhem os visitantes em suas casas de adobe preparadas para prestar serviços de hospedagem e alimentação. A atividade já se tornou ingresso econômico significativo para a polulação da ilha. 
"Antes eu não tinha lápis e caderno para a escola e com o turismo a situação melhorou um pouco para o meu filho", conta Justa Mamani Juli, mãe solteira de 33 anos, depois de criarmos mais intimidade. Os dois dias e as duas noites na casa dela foram definitivos para entender que o mais interessante dessa experiência é o tempo de estadia e a troca entre ambas as partes. "Fico feliz de conhecer gente de todo o mundo e saber mais sobre diferentes modos de viver", relata animada durante uma conversa nossa sobre o Brasil. 
Depois de passar a manhã colhendo ocas, uma espécie de tubérculo da região, de saborear a comida preparada a lenha e de bailar na noite de festa da comunidade vestida com a roupa típica do lugar, a despedida de Amantaní é dura, mas necessária. Chega a hora das águas me levarem até Taquile, a maior das ilhas do Titicaca e pioneira no turismo rural no Peru. 
Localizada a 35 km de Puno e com 1.700 habitantes, a ilha guarda vestígios das épocas pré-inca, inca e colonial, quando foi utilizada como prisão política até meados do século 20. "A partir da década de 70, Taquile passa a ser de fato dos taquilenhos que viram no resgate da sua cultura uma via de desenvolvimento econômico", explica Dario Huatta, prefeito do lugar, que já perdeu a essência do turismo vivencial. Hoje, os poucos turistas que passam a noite em Taquile se alojam nos restaurantes que também oferecem o serviço de hospedagem.
Uma característica sobressalente da ilha é o modo de vida baseado no antigo código moral dos incas: Ama Sua (não roube), Ama Quella (não minta) e Ama Llulla (não seja folgado). Descumprir estas leis significa ser penalizado, podendo até ser expulso. As tradições também se expressam através dos tecidos, cujos desenhos representam sua organização social. São os homens da ilha que produzem seus próprios gorros com cores que indicam a posição que ocupam na comunidade. 

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Quando aceitei o convite de Walter Calsin Juli, de 29 anos, para cortar pela primeira vez o cabelo da sua filha senti que estava definitivamente compartindo a vida com aquela gente. O barqueiro e sua mulher ensinam que, se os pais realizam os três primeiros cortes, a criança fica para sempre condenada. Eles entregam a pequena Analin Marília a mim, sua mais nova madrinha. Agora não tem mais jeito, tenho a minha história com o Titicaca.

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